{"id":111,"date":"2020-11-06T10:00:01","date_gmt":"2020-11-06T10:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/?p=111"},"modified":"2020-11-06T17:22:16","modified_gmt":"2020-11-06T17:22:16","slug":"o-bardo-na-bretema-elephas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/2020\/11\/06\/o-bardo-na-bretema-elephas\/","title":{"rendered":"O bardo na br\u00eatema : Elephas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Tinha um amigo amante da pataf\u00edsica<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>, muito sorridente e resolutivo que, quando lhe perguntavam pelo signo astrol\u00f3gico, sempre respondia que era <em>Elephas<\/em>. A resposta era t\u00e3o categ\u00f3rica que desarmava os poss\u00edveis argumentos uranosc\u00f3picos dos interlocutores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-114 alignleft\" src=\"https:\/\/aa.academiagalega.org\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/elefante-203x300.jpg\" alt=\"\" width=\"203\" height=\"300\" \/>A m\u00edstica dos elefantes \u00e9 geralmente muito ben\u00e9vola. Uma amiga que criava e colecionava pequenas figuras destes paquidermes \u2500sempre com a tromba erguida, porque as percebia como portadoras da boa sorte\u2500 olhando pelo meu porvir, ofereceu-me um simp\u00e1tico elefantito cor de rosa que, pelo sim ou pelo n\u00e3o, ainda conservo. A cor denota sensibilidades inici\u00e1ticas duma zoomorfia esot\u00e9rica alheia \u00e0 pigmenta\u00e7\u00e3o natural da epiderme destes mam\u00edferos probosc\u00eddeos. Tamb\u00e9m h\u00e1 elefantes brancos para inocular dispendiosos ares de grandeza nos pobres de esp\u00edrito, e que sempre se v\u00eam a revelar incomport\u00e1veis e de nulo proveito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No hindu\u00edsmo o elefante encarna a figura de Ganesha, deusa da ci\u00eancia, a beleza e a sabedoria, mas para os ocidentais representa o peso, a lentid\u00e3o e a falta de jeito. Duas leituras antag\u00f3nicas do mais corpulento mam\u00edfero terrestre da atualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Desde que Nietzsche publicitara em 1882 a morte de Deus em <em>A Gaia Ci\u00eancia<\/em>, a prazerosa vol\u00fapia do pecado esvaiu-se e o sentimento de culpa ficou desprovido do conforto da contri\u00e7\u00e3o. \u00c9 certo que, quando se mata algo fict\u00edcio, nos estertores da morte multiplicam-se as apari\u00e7\u00f5es apocal\u00edpticas, num \u00faltimo intento de amedrontar os ousados descrentes, mas os novos imagin\u00e1rios acabam por se impor \u00e0quela decad\u00eancia moribunda. A perda de Deus marcou o in\u00edcio do modernismo e os pensamentos tornaram-se \u201cas sombras dos nossos sentimentos &#8211; sempre mais escuros, mais vazios e mais simples\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a> a crescerem de modo elefant\u00edaco. Umas sombras que afundam muitas pessoas na insignific\u00e2ncia. Um tenebrismo que abate personagens brilhantes. Uma culpa que queremos esconder ao resto do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-115 alignright\" src=\"https:\/\/aa.academiagalega.org\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/sopas-191x300.jpg\" alt=\"\" width=\"191\" height=\"300\" \/>Quando as teorias religiosas iniciaram o seu decl\u00ednio, os manuais de medicina de finais do s\u00e9culo XIX come\u00e7aram a admitir um termo que, s\u00f3 ap\u00f3s a segunda grande guerra, se vai transformar em\u00a0 doen\u00e7a. Aquilo que antes era obra do diabo ou mesmo um castigo divino que se tratava com preces, ladainhas, cil\u00edcios, ou exorcismos, vai-se transformando em diversos desassossegos mentais comummente conhecidos por depress\u00e3o. E como deus j\u00e1 sucumbira ao embate da ci\u00eancia, as met\u00e1foras tornaram-se profanas e os <em>elephantes<\/em> entram nas vidas de porcelana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A literatura sempre tratou desses grandes v\u00e1cuos do quotidiano com o cuidado minucioso dos ourives e preenchia-os de deuses ou santos de estima\u00e7\u00e3o. Aquele t\u00e9dio agora \u00e9 ocupado por zoomorfologias m\u00faltiplas com tend\u00eancia para os de maior porte, como os paquidermes \u2500dado que os dinossauros h\u00e1 tempo que foram extinguidos\u2500 e os arm\u00e1rios, esses m\u00f3veis compartimentados onde se arrumam as coisas da vida, come\u00e7aram a povoar-se de elefantes. Teresa Moure teve de criar uma nova linha de <em>Sopas New Campbell<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><strong>[iii]<\/strong><\/a><\/em> para dar sa\u00edda ao exceso de carne produzida por <em>Um elefante no arm\u00e1rio<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><strong>[iv]<\/strong><\/a>.<\/em> Leituras altamente gratificantes pela preciosidade da escrita e que nos fazem refletir sobre esse arm\u00e1rio que cada um de n\u00f3s transporta na solid\u00e3o de uma tumultuosa exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Elephas<\/em> era a met\u00e1fora zodiacal que povoava o arm\u00e1rio do meu sorridente amigo pataf\u00edsico, mas, como bem conclui Teresa Moure, os elefantes metaf\u00f3ricos n\u00e3o se comem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00a9 2020 by Rudesindo Soutelo<br \/>\n(Vila Praia de \u00c2ncora: 15-9-2020)<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Termo cunhado em 1898 por Alfred Jarry na sua obra \u2018neocient\u00edfica\u2019 <em>Gestes et opinions du docteur Faustroll, pataphysicien.<\/em> Foi publicada, ap\u00f3s a morte do autor, em 1911 e est\u00e1 dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/gallica.bnf.fr\/ark:\/12148\/bpt6k113964m\">https:\/\/gallica.bnf.fr\/ark:\/12148\/bpt6k113964m<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Nietzche, F. (1882). <em>A Gaia Ci\u00eancia<\/em>. Aforismo 179.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> Moure, T. (2020). <em>Sopas New Campbell<\/em>. Arz\u00faa (Galiza): Cuarto de inverno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> Moure, T. (2017). <em>Um elefante no arm\u00e1rio<\/em>. Santiago (Galiza): Atrav\u00e9s editora.<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tinha um amigo amante da pataf\u00edsica, muito sorridente e resolutivo que, quando lhe perguntavam pelo signo astrol\u00f3gico, sempre respondia que era Elephas. A resposta era t\u00e3o categ\u00f3rica que desarmava os poss\u00edveis argumentos uranosc\u00f3picos dos interlocutores. A m\u00edstica dos elefantes \u00e9 geralmente muito ben\u00e9vola. 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