{"id":152,"date":"2020-11-30T08:42:57","date_gmt":"2020-11-30T08:42:57","guid":{"rendered":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/?p=152"},"modified":"2020-11-30T10:29:22","modified_gmt":"2020-11-30T10:29:22","slug":"o-poemario-o-trebo-das-catro-follas-1944-de-carvalho-calero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/2020\/11\/30\/o-poemario-o-trebo-das-catro-follas-1944-de-carvalho-calero\/","title":{"rendered":"O poem\u00e1rio &#8220;O trebo das catro follas&#8221; (1944) de Carvalho Calero"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Entre os materiais que deixou in\u00e9ditos Carvalho Calero encontra-se um breve poem\u00e1rio intitulado <em>O trebo das catro follas (1944)<\/em>. Conservou-se como mecanoscrito entre os seus pap\u00e9is, com a data de 1944. No \u00abArquivo Carballo Calero\u00bb do Parlamento Galego aparece registado assim: \u201c<em>O trebo das catro follas, 1944 \/ Ricardo Carballo Calero \/ 12 f. Mecanografados \/ Arquivo Carballo Calero AC 54 049<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um poem\u00e1rio simp\u00e1tico, constitu\u00eddo por 108 quadras de feitio popular, numeradas com n\u00fameros romanos, algumas delas de realiza\u00e7\u00e3o muito feliz. Constitui um bom testemunho da admira\u00e7\u00e3o e do carinho que Carvalho sentia pela cultura popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-156 \" src=\"https:\/\/aa.academiagalega.org\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/CarvC-Trebo-portada.jpg\" alt=\"\" width=\"486\" height=\"268\" \/>Carvalho manteve in\u00e9dito at\u00e9 o fim da vida este texto, provavelmente por consider\u00e1-lo um simples divertimento sem import\u00e2ncia liter\u00e1ria. No entanto, publicara alguns fragmentos (uma d\u00fazia de quadras) em artigo do jornal corunh\u00eas <em>La Voz de Galicia<\/em> em julho de 1945. E alguns outros fragmentos foram aproveitados por ele nas suas pe\u00e7as teatrais <em>O fillo<\/em> (1935) e <em>Isabel<\/em> (1945).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para compreendermos melhor a atitude que deu origem \u00e0 composi\u00e7\u00e3o deste poem\u00e1rio ser\u00e1 necess\u00e1rio prestarmos aten\u00e7\u00e3o \u00e0s circunst\u00e2ncias vitais de Carvalho naquela \u00e9poca dos anos 40. Por esses primeiros anos de franquismo a repress\u00e3o do uso p\u00fablico do galego alcan\u00e7ou o seu grau mais violento: s\u00f3 a poesia popular e a m\u00fasica tradicional eram campos em que se tolerava um m\u00ednimo cultivo liter\u00e1rio da l\u00edngua galega. Essa restri\u00e7\u00e3o resultava ainda mais for\u00e7ada para Carvalho, pois nesse momento (ano 1944 e precedentes) vivia em Ferrol, em situa\u00e7\u00e3o de liberdade condicional, submetido a um constante controlo policial, que inclu\u00eda a obriga n\u00e3o s\u00f3 de apresentar-se todos os meses mas tamb\u00e9m de n\u00e3o afastar-se da cidade ou das suas proximidades sem autoriza\u00e7\u00e3o judicial ou policial por alguma causa justificada e extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poem\u00e1rio completo foi editado postumamente por Carmen Blanco em 1996 (e reimpresso em 2000), precedido de uma iluminadora e detalhada apresenta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica da editora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo do poem\u00e1rio parte da cren\u00e7a popular referente ao trevo de quatro folhas como sinal de boa fortuna e felicidade (embora, a esse respeito, o poeta n\u00e3o deixe de advertir que realmente a felicidade n\u00e3o est\u00e1 ao nosso alcance):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">4 \u201cO trebo das catro follas<br \/>\n\u00e9 a fror da felicidade.<br \/>\nMedra en terras de Ningures<br \/>\ne veno os ollos de Naide\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o trevo das quatro folhas compara os quatro versos que conformam a estrutura mais comum da cantiga popular, a quadra tradicional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">1 \u201cO cantar ten catro azas,<br \/>\nigual que unha volvoreta:<br \/>\ncomo ila de xesta en silva,<br \/>\nas\u00ed il vai de bulra en festa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No poem\u00e1rio achamos refer\u00eancias expl\u00edcitas ao contexto vital de Carvalho por esses anos: h\u00e1 alus\u00f5es a lugares da zona de Ferrol, a ambos os lados da ria (Esteiro, Ferrol, Ferrol Velho, A Granha, Larage, Limodre, Magalofes, Mugardos, Perlio, S\u00e3o Pedro de Leixa, S\u00e3o Mamede de Larage&#8230;) e a circunst\u00e2ncias ou experi\u00eancias desse tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">93 <em>Perl\u00edo<\/em>, nome que soa<br \/>\ncal p\u00e9rola sobre vidro;<br \/>\n<em>Perl\u00edo<\/em>, nome tan doce<br \/>\ncomo o celme dos teus figos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">94\u00a0Os rapaces de Mugardos<br \/>\nc\u00e1ntanlles aos de Ferrol:<br \/>\npara mari\u00f1os vosoutros,<br \/>\npara mari\u00f1eiros n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de que toda a s\u00e9rie de 108 quadras aparece sem nenhuma indica\u00e7\u00e3o e sem nenhum t\u00edtulo interm\u00e9dio que indiquem uma distribui\u00e7\u00e3o ou uma refer\u00eancia ao conte\u00fado, \u00e9 poss\u00edvel distinguir no conjunto pequenas subs\u00e9ries com unidade tem\u00e1tica, de maneira que poder\u00edamos ver a\u00ed breves poemas independentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, poder\u00edamos identificar como poemas aut\u00f3nomos as seguintes unidades tem\u00e1ticas de v\u00e1rias quadras cont\u00edguas: \u00abNatal\u00bb (quadras 34-37), \u00abCantiga de berce\u00bb (39-41), \u00abMo\u00e7a que est\u00e1s na friesta\u00bb (42-44), \u00abA peixeira\u00bb (57-58), \u00abAmanhecer na aldeia\u00bb (77-79), \u00abA lavandeira\u00bb (83-84), \u00ab\u00c1rvores\u00bb (86-87); e no fim do poem\u00e1rio tr\u00eas s\u00e9ries de tem\u00e1tica geogr\u00e1fica: \u00abA \u201coutra banda\u201d da ria de Ferrol\u00bb (88-94), \u00abA zona de Ferrol\u00bb (95-101), \u00abSaudades de Compostela\u00bb (102-108).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sirvam de amostra os tr\u00eas fragmentos seguintes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1) Uma cantiga de berce<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas quadras oferecem-nos uma breve cantiga de berce (dirigida provavelmente \u00e0 sua filha Maria Vict\u00f3ria, nascida em Ferrol em maio de 1942):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">39 \u201cDurme, mi\u00f1a nena, durme,<br \/>\nque eu te velo mentras so\u00f1as,<br \/>\ne ate os anxi\u00f1os do ceo<br \/>\nalpor\u00edzanse se choras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">40 Durme, mi\u00f1a nena, durme,<br \/>\nchoe os olli\u00f1os de ceo<br \/>\nmentras o teu pai che canta<br \/>\npara escorrentarche o medo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2) A peixeira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outras duas quadras apresentam-nos a figura da peixeira (vendedora de peixe), que ele bem conhecia da sua inf\u00e2ncia em Ferrol Velho: Descobrimos a\u00ed, em s\u00f3 8 versos, uma sugestiva descri\u00e7\u00e3o da peixeira, vista ademais com um sentimento de admira\u00e7\u00e3o e de sincera simpatia humana por uma profiss\u00e3o humilde e sacrificada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">57\u00a0\u201c\u2013 Parrochas como sardi\u00f1as!,<br \/>\nolhos-moles, munxes, xardas!\u201d<br \/>\nO sal do mar nos teus beizos<br \/>\nvaiche salpicando a fala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">58 Peixeira de perna espida<br \/>\nque vendel-o peixe fresco,<br \/>\nun tremor de auga salgada<br \/>\nescorr\u00e9gache antre os peitos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3) Saudades de Compostela<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As quadras finais do poem\u00e1rio evocam a saudade da cidade de Santiago, tanto em Ja\u00e9n como na situa\u00e7\u00e3o de liberdade condicional em Ferrol (pois n\u00e3o p\u00f4de ir a Santiago at\u00e9 alguns anos mais tarde):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">102 Vendo as torres de Ja\u00e9n<br \/>\ncoidaba na Berenguela.<br \/>\nBaixo o sol de Andaluc\u00eda<br \/>\nti\u00f1a saudades da br\u00e9tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">103\u00a0A vila de Santiago<br \/>\nest\u00e1 antre Sar e Sarela.<br \/>\nAs mozas dos estudantes<br \/>\nantre o esquezo e a espreita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">104\u00a0Compostela da lembranza,<br \/>\nc\u00f3mo xurdes ante min.<br \/>\nDame os teus brazos de pedra<br \/>\npara que poda dormir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">105\u00a0Compostela do recordo,<br \/>\nCompostela, mi\u00f1a nai;<br \/>\ndame cabezal de choiva<br \/>\npara que poida so\u00f1ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">106\u00a0Compostela do desterro,<br \/>\nvila arelada e prohibida.<br \/>\nA mi\u00f1a alma e a t\u00faa pedra<br \/>\nson noivos pra toda a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">107\u00a0Pol-o abrente antre o ma\u00ednzo<br \/>\nmedra o ch\u00edo das labercas.<br \/>\nNo Toral cantan os zocos<br \/>\nno mencer de Compostela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 40px;\">108\u00a0Coa choiva que arreo cai,<br \/>\nna t\u00faa roca de pedra,<br \/>\nCompostela, f\u00eda l\u00e1<br \/>\npra o teu mantelo de br\u00e9tema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os materiais que deixou in\u00e9ditos Carvalho Calero encontra-se um breve poem\u00e1rio intitulado O trebo das catro follas (1944). Conservou-se como mecanoscrito entre os seus pap\u00e9is, com a data de 1944. No \u00abArquivo Carballo Calero\u00bb do Parlamento Galego aparece registado assim: \u201cO trebo das catro follas, 1944 \/ Ricardo Carballo Calero \/ 12 f. Mecanografados \/ Arquivo Carballo Calero AC 54 049\u201d. \u00c9 um poem\u00e1rio simp\u00e1tico, constitu\u00eddo por 108 quadras de feitio popular, numeradas com n\u00fameros romanos, algumas delas de realiza\u00e7\u00e3o muito feliz. Constitui um bom testemunho da admira\u00e7\u00e3o e do carinho que Carvalho sentia pela cultura popular. 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