{"id":233,"date":"2020-12-08T10:39:16","date_gmt":"2020-12-08T10:39:16","guid":{"rendered":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/?p=233"},"modified":"2020-12-08T10:39:16","modified_gmt":"2020-12-08T10:39:16","slug":"do-monolinguismo-como-mito-1998","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/2020\/12\/08\/do-monolinguismo-como-mito-1998\/","title":{"rendered":"Do monolinguismo como mito (1998)"},"content":{"rendered":"<p align=\"Right\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\"><i><small>A linguagem n\u00e3o \u00e9 a vida, a linguagem d\u00e1 ordens \u00e0 vida;<br \/>\na vida n\u00e3o fala, a vida escuta e espera<\/small><\/i><\/span><\/p>\n<p align=\"Right\"><strong><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\"><small>Gilles Deleuze e F\u00e9lix Guattari<\/small><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\"><i><b>Monolinguismo social<\/b><\/i>. Consigna reacion\u00e1ria, fal\u00e1cia acr\u00edtica publicitada por uma ideologia pol\u00edtico-lingu\u00edstica aparentemente dominada mas passiva de ser dominante. <i><b>Bilinguismo social<\/b><\/i>. Emp\u00edrica, cient\u00edfica e democr\u00e1tica consigna usada pela atual ideologia pol\u00edtico-lingu\u00edstica dominante para ocultar a din\u00e2mica de um limpo, harm\u00f3nico e equilibrado genoc\u00eddio cultural que exclui desnecess\u00e1rias e caras efus\u00f5es de sangue ou v\u00edsceras. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">Par de conceitos excludentes? Ou apenas duas formas, nacionalmente determinadas, de conceber a externidade do processo de controlo social atrav\u00e9s da l\u00edngua? Dous nomes muito diferentes para um mesmo interesse: a defini\u00e7\u00e3o de uma particular <i>normalidade sociolingu\u00edstica<\/i>, modernamente delimitada por um processo pr\u00e9vio de <i>normaliza\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica<\/i> que apresenta como objetivo a supress\u00e3o de um <i>conflito lingu\u00edstico<\/i>; ou seja, um processo de cria\u00e7\u00e3o de um novo c\u00f3digo de poder (padr\u00e3o ou est\u00e1ndar) para a l\u00edngua tradicionalmente exclu\u00edda dos \u00e2mbitos de poder e cess\u00e3o parcial destes ao novo c\u00f3digo; um processo de cria\u00e7\u00e3o ou simples reestrutura\u00e7\u00e3o de elites pol\u00edticas, t\u00e9cnicas e intelectuais planificadoras-definidoras da <i>normalidade<\/i>; um processo de remodela\u00e7\u00e3o, atualiza\u00e7\u00e3o ou refinamento dos mecanismos (aparelhos ideol\u00f3gicos) de controlo lingu\u00edstico (e n\u00e3o apenas); um processo, por fim, e fundamentalmente, de manipula\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, de constru\u00e7\u00e3o de uma <i>comunidade imaginada<\/i>, de uma na\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">No exemplo galego, at\u00e9 hoje a <i>normaliza\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica<\/i> representa basicamente a instaura\u00e7\u00e3o de um mercado lingu\u00edstico de tipo capitalista que vem substituir apenas de jeito parcial ao previamente existente, a respeito do qual age em regime de <i>autonomia subordinada<\/i> ou <i>interineidade de dura\u00e7\u00e3o desconhecida<\/i>. Portanto, trata-se na realidade de um simples processo de <i>inser\u00e7\u00e3o<\/i> como demonstram os nossos escritores bilingues da literatura regional ou alguns representantes da intelectualidade galeg\u00f3fona oficial e a sua necessidade de se verem reconhecidos no mercado lingu\u00edstico, no \u00e2mbito cultural espanhol <i>superordinado<\/i> ao tempo que fogem do \u00e2mbito cultural portugu\u00eas e o seu mercado lingu\u00edstico, onde n\u00e3o existe nenhum interesse pela promo\u00e7\u00e3o deles, e que, na apar\u00eancia, deveria ser o <i>normal<\/i> para a literatura galega e o <i>novo galego<\/i> mas que \u00e9 omitido como <i>estrangeiro<\/i> enquanto o espanhol \u00e9 assumido como pr\u00f3prio. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">Nos seus aspetos puramente estruturais, o novo mercado <i>secund\u00e1rio<\/i> ou <i>subordinado<\/i> \u00e9, como esper\u00e1vel, uma reprodu\u00e7\u00e3o mim\u00e9tica da apropria\u00e7\u00e3o (ou seja, constru\u00e7\u00e3o) capitalista da l\u00edngua e a sua consequente explora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica (ou <i>cultural<\/i>) e econ\u00f3mica (id\u00eantico, portanto, ao espanhol ou ao portugu\u00eas): produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o de bens <i>culturais<\/i>, talvez com a particularidade de um acrescentado <i>tudo vale<\/i>, assente no voluntarismo rom\u00e2ntico dos produtores que afinal faz pouco produtivo o neg\u00f3cio (da\u00ed a necessidade de aceder ao <i>mercado superordinado<\/i>, o realmente produtivo). <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">Apenas o entusiasmo e a ilus\u00e3o dos primeiros anos podem ainda, sobretudo aos olhos de uns rom\u00e2nticos bem pouco revolucion\u00e1rios, ocultar este facto. Junto a isto, ou antes, <i>sobre<\/i> isto, existe uma pol\u00edtica planificada de defini\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria no caminho do <i>politicamente correto<\/i>, necessariamente estatalista ou nacionalitariamente espanhola, que come\u00e7a a oferecer os seus primeiros e esper\u00e1veis resultados (veja-se o volume sobre atitudes que completa o projeto de investiga\u00e7\u00e3o e consequente defini\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria que \u00e9 o Mapa Sociolingu\u00edstico). <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">A <i>ilus\u00e3o necess\u00e1ria<\/i> que o Estado tem articulado para controlar o <i>problema galego<\/i> tem produzido rapidamente os efeitos desejados, o reconhecimento do valor do <i>galego<\/i> por parte de segmentos maiorit\u00e1rios da popula\u00e7\u00e3o (isto \u00e9, a sua <i>desproblematiza\u00e7\u00e3o)<\/i> permite postular, talvez pela primeira vez na hist\u00f3ria, que se d\u00e3o todas as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para o seu desaparecimento como fala. Para que servem dous c\u00f3digos com o mesmo valor? <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">Para que manter, portanto, os dous? Um deles sobra, \u00e9 antiecon\u00f3mico porque j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio -isto \u00e9, produtivo num regime historicamente aut\u00e1rquico mas que tem deixado de s\u00ea-lo ao ritmo da globaliza\u00e7\u00e3o capitalista- manter uma das l\u00ednguas e grandes segmentos da popula\u00e7\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o desprivilegiada de disciplina-controlo: as condi\u00e7\u00f5es para o controlo j\u00e1 s\u00e3o outras, plenamente capitalistas, n\u00e3o disciplin\u00e1rias mais que para os escassos e necess\u00e1rios segmentos dissidentes (em geral coincidentes com posi\u00e7\u00f5es reintegracionistas). <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">A <i>l\u00edngua prolet\u00e1ria<\/i> fica por fim no que nunca deixou de ser: uma palha\u00e7ada humanista, populista, miser\u00e1velista. A fal\u00e1cia, o v\u00e9u que dificulta a vis\u00e3o, instala-se agora na aparente bifidez codificada da l\u00edngua de poder. O que se tem baptizado como <i>co-oficialidade<\/i>, o <i>bilinguismo institucional<\/i> da harmoniosa democracia espanhola constitucionalmente sustentada no seu harmonioso ex\u00e9rcito. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">Ainda no caso hipot\u00e9tico, que exclu\u00edmos, de poder ser considerado como <i>nacionalmente<\/i> galego um c\u00f3digo legitimado pela legalidade nacional espanhola, o problema, como decerto deveriam saber as nossas elites nacionais ex-, a- ou para-marxistas, continua sempre a ser outro muito diferente. Destaca o profundo despre\u00e7o por parte da nossa <i>sociolingu\u00edstica nacional<\/i> e os nossos linguistas propensos ao de <i>&#8220;na minha aldeia diz-se assim&#8221;<\/i>, a respeito da complexa heteroglossia do <i>povo<\/i> elevado a categoria quase-m\u00edstica no imagin\u00e1rio do nacionalismo galego (<i>povo<\/i> e <i>l\u00edngua<\/i>, fascismo patri\u00f3tico), mas sistematicamente exclu\u00eddo na quest\u00e3o l\u00edngua pelos representantes da <i>vontade popular<\/i>. Destaca igualmente o voluntarismo suspeitoso da nossa <i>sociolingu\u00edstica nacional<\/i> que tem produzido milhares de p\u00e1ginas mas que ainda nos n\u00e3o tem oferecido um programa detalhado e coerente da sua pol\u00edtica lingu\u00edstica. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">Conhecemos, ou conhec\u00edamos o objetivo, a consecu\u00e7\u00e3o do <i>monolinguismo social<\/i>; mas como? Atrav\u00e9s talvez da esperan\u00e7a salv\u00edfica no poder de uma Lei (espanhola)? Como espera o nacionalismo galego atingir um estado de <i>monolinguismo social<\/i>? Bourdieu tem delimitado com precis\u00e3o a contradi\u00e7\u00e3o em que se acham os discursos lingu\u00edsticos dos nacionalismos dominados: a condena inilud\u00edvel a reproduzir o <i>mesmo<\/i>, essencialmente fascista, processo de uniformiza\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica cujos efeitos tinham previamente denunciado. \u00c9 o <i>monolinguismo social<\/i> o est\u00e1dio \u00faltimo da democratiza\u00e7\u00e3o sociolingu\u00edstica? <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">Sup\u00f5e o <i>monolinguismo social<\/i> a elimina\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de dom\u00ednio entre classes sociais, o desaparecimento das elites que controlam e exploram simb\u00f3lica e economicamente o mercado lingu\u00edstico e consequentemente a pr\u00f3pria elimina\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o capitalista deste, a supress\u00e3o do desequil\u00edbrio social e o exerc\u00edcio da viol\u00eancia simb\u00f3lica que prov\u00e9m do controlo ou n\u00e3o da <i>l\u00edngua leg\u00edtima<\/i>? \u00c9 essencialmente melhor, menos perverso, o <i>monolinguismo social<\/i> do que o <i>bilinguismo social<\/i>? Por que a <i>sociolingu\u00edstica nacional<\/i> n\u00e3o leva at\u00e9 \u00e0s suas \u00faltimas consequ\u00eancias o seu uso do conceito <i>diglossia<\/i>? <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">Ou antes, por que foge dele, atrav\u00e9s da sua manipula\u00e7\u00e3o? Por que, enfim, a estrutura de domina\u00e7\u00e3o que subjaz \u00e0 <i>distribui\u00e7\u00e3o socioletal<\/i> \u00e9 considerada como <i>normal<\/i> quando existe uma \u00fanica <i>l\u00edngua<\/i> e como <i>anormal<\/i> quando existem duas? \u00c9 l\u00edngua de poder, dominante, o espanhol falado por um <em>yonki<\/em> moribundo num bairro da Corunha? \u00c9 l\u00edngua de n\u00e3o-poder, dominada, o galego falado por um catedr\u00e1tico mesmo na Universidade opus-meilanista ou uma deputada mesmo no Parlamento hispano-fraguista? <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">Como \u00e9 poss\u00edvel que ainda haja necessidade de formular estas perguntas? Afirmo, decerto, a exist\u00eancia de um silencioso genoc\u00eddio que afeta o povo (<i>comunidade imaginada<\/i>) que fala o portugu\u00eas da Galiza ou galego (particular <i>representa\u00e7\u00e3o<\/i> grupal) pela sua potencialidade como elemento desintegrador da unidade do incompleto projeto de Estado-Na\u00e7\u00e3o que \u00e9 a Espanha; desintegrador essencialmente na perspetiva lusista, praticamente os \u00fanicos usos de galego que est\u00e3o a sofrer repress\u00e3o (disciplina) na atualidade. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">Mas isto n\u00e3o pode implicar o esquecimento de que o construto L\u00edngua (como o \u00e9 o construto Povo, como \u00e9 o construto Na\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o construto Deus) \u00e9 um conceito fascista, omnipotente, uniformizador e excluinte do desejo que se exprime nas pr\u00e1ticas incontrol\u00e1veis e bab\u00e9licas da fala quotidiana que quebram, em deriva libert\u00e1ria, o car\u00e1cter reacion\u00e1rio dos c\u00f3digos puros extremamente representados simbolicamente na posi\u00e7\u00e3o estrutural dos acad\u00e9micos e dos construtores de L\u00edngua, puristas interessados do padr\u00e3o, de <i>qualquer<\/i> padr\u00e3o, mesmo deste que utilizo. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">O poder j\u00e1 <i>fala<\/i> galego e, ao tempo que o povo falar\u00e1 maioritariamente espanhol, provavelmente ainda o h\u00e1-de <i>falar<\/i> muito mais como bom exemplo da sua desproblematiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a sua reterritorializa\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica como nova epiderme da l\u00edngua do poder. \u00c9 por isto o poder j\u00e1 essencialmente <i>bom<\/i> ou deriva-se talvez deste facto uma mudan\u00e7a revolucion\u00e1ria que subverta a barb\u00e1rie em que nos fazem viver, em que nos deixamos viver? Agora que cada vez se acha mais pr\u00f3ximo o acesso ao poder institucional das elites nacionais galegas no grau suficiente como para poderem agir, h\u00e1 que come\u00e7ar a perguntar cousas tais como se a <i>normalidade lingu\u00edstica<\/i> que desejam as nossas elites nacionais \u00e9 a <i>normalidade lingu\u00edstica<\/i> do Estado capitalista. Uma est\u00e9tica mudan\u00e7a de um <i>sistema de normas<\/i> por outro <i>sistema de normas<\/i> mimeticamente reproduzido mas com c\u00f3digo de nome diferente? <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">Substituir o c\u00f3digo de poder <i>espanhol<\/i> polo c\u00f3digo de poder <i>galego<\/i> (sem d\u00favida graficamente in\u00e7ado de enhes, ainda que isso, obviamente, \u00e9 o de menos) num governo nacionalista supor\u00e1 uma radical mudan\u00e7a do sistema capitalista de domina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da l\u00edngua? Qualquer galego ou galega que n\u00e3o possua completa per\u00edcia no c\u00f3digo de poder ter\u00e1 a possibilidade de ser <i>representante legitimado do povo<\/i>, poder\u00e1 aceder aos \u00e2mbitos de poder, poder\u00e1 ser elite? O conhecimento da <i>l\u00edngua leg\u00edtima<\/i> deixar\u00e1 de ser condi\u00e7\u00e3o obrigada para a melhora das condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f3micas? <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">Ou talvez o nosso futuro governo nacionalista eliminar\u00e1 antes, de acordo com a sua pret\u00e9rita ideologia, o sistema de classes e os grupos privilegiados ou elites? O poder, que nos n\u00e3o enganem, \u00e9 essencialmente monolingue, ainda que na realidade-democracia (e noutras) tenha aprendido a modular muito bem as suas vozes, a aparecer-se como heterogl\u00f3ssico atrav\u00e9s de inumer\u00e1veis canais de comunica\u00e7\u00e3o, novos e velhos aparelhos ideol\u00f3gicos, ainda que tenha apreendido a nos adular, a nos fazer promessas de transforma\u00e7\u00f5es, de mudan\u00e7as radicais, ainda que exalte falazmente a diferen\u00e7a, o polimorfismo, a multiplicidade de apar\u00eancia niilista, ainda que tenha apreendido a nos falar de um presente de liberdade, de um futuro de prosperidade e igualdade, de progressismo, de solidariedade. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">O poder est\u00e1 unido \u00e0 diglossia, mas de jeito muito diferente a como no-lo t\u00eam contado o discurso nacionalista. A oposi\u00e7\u00e3o estabelece-se entre a sua natureza monolingue e o car\u00e1cter heterogl\u00f3ssico dos indiv\u00edduos sobre os que age, sobre o car\u00e1cter libert\u00e1rio da fala como express\u00e3o imposs\u00edvel e inst\u00e1vel do desejo. Que nos n\u00e3o engane a fal\u00e1cia de uma melhor posi\u00e7\u00e3o estrutural para os que construimos discursos em galego. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">A <i>sociolingu\u00edstica nacional catal\u00e3<\/i>, convenientemente institucionalizada, situada por fim nos \u00e2mbitos de poder t\u00e3o desejados, esquece o conflito (para eles tem desaparecido), a diglossia (para eles nunca existiu) e postula a <i>normaliza\u00e7\u00e3o<\/i>: a adapta\u00e7\u00e3o da sociedade aos seus postulados ideol\u00f3gicos para al\u00e9m da sua reloca\u00e7\u00e3o como elites de poder inquestionadas pelo seu inquestion\u00e1vel passado de luta. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">Que \u00e9 que far\u00e1 a nossa <i>sociolingu\u00edstica nacional<\/i> e o seu inquestion\u00e1vel passado de luta quando alcance os \u00e2mbitos de poder? Qual \u00e9 o plano de trabalho da <i>normaliza\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica galega<\/i>? Como espera atingir o <i>monolinguismo social<\/i> o nacionalismo galego? Que <i>realidade sociolingu\u00edstica<\/i> inventar\u00e1 para n\u00f3s? Um povo, uma l\u00edngua, uma na\u00e7\u00e3o? Bom ponto \u00e0 partida para um nacionalismo de esquerdas, embora socioldemocrata! Uma Galiza <i>monolingue<\/i> em <i>galego<\/i> talvez nos possa satisfazer esteticamente. Mas eticamente h\u00e1 que denunciar a leitura nacional do <i>monolinguismo<\/i> como centraliza\u00e7\u00e3o de um discurso cultural que, ideologicamente, \u00e9 simples conservadurismo etnicista, de base fascista, novo mapa de consignas que vem ocultar mais uma vez o problema: a bestializa\u00e7\u00e3o a que nos vemos submetidas e submetidos quotidianamente, a barb\u00e1rie capitalista, o pensamento \u00fanico, o homic\u00eddio da hist\u00f3ria, a hero\u00edna e o \u00e1lcool, os desportos de massas, a deseduca\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria, o silenciamento da Universidade, o terrorismo de Estado, a fal\u00e1cia de democracia, a expropria\u00e7\u00e3o das nossas breves vidas&#8230; <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">Enfim, elementos diversos da situa\u00e7\u00e3o que os comunistas, na sua l\u00edngua sacra, definem como <i>subsun\u00e7\u00e3o real<\/i>. O final do pensamento.O final do mundo. A l\u00edngua \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o, uma inven\u00e7\u00e3o do Estado, e n\u00e3o h\u00e1 que ser Poulantzas ou Bourdieu para sabe-lo nem h\u00e1 que reproduzir mimeticamente as li\u00e7\u00f5es aprendidas em mestres ou her\u00f3is. O \u00fanico objetivo s\u00f3 pode ser a destrui\u00e7\u00e3o do Estado. Guerra ou luta desesperada pela superviv\u00eancia apenas s\u00e3o quest\u00f5es de grau. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"Left\"><span style=\"font-family: Arial,Verdana,Univers;\">O genoc\u00eddio que se est\u00e1 a gerar, que se est\u00e1 a cometer cada dia, dista muito de ser apenas a supress\u00e3o n\u00e3o fisicamente violenta de um determinado grupo etnolingu\u00edstico (<i>eutan\u00e1sia<\/i> haveria que dizer). Ainda usando a linguagem falaz e apocal\u00edptica de aqueles novos fil\u00f3sofos que, como express\u00e3o das formas que a barb\u00e1rie ia adquirir, nasceram sobre as cinzas da \u00faltima revolu\u00e7\u00e3o, h\u00e1 que dizer que vivemos \u00e9poca de holocausto. Mas agora nem \u00e9 necess\u00e1rio utilizar um forno cremat\u00f3rio. A L\u00edngua devora as falas num novo prescritivismo escassamente disciplin\u00e1rio. O Estado devora os corpos, e neste processo criativo controla a pot\u00eancia revolucion\u00e1ria do desejo, da festa, e expulsa votantes. Um mundo feliz, sem d\u00favida. Morto o c\u00e3o, acabou-se a raiva.<\/span><\/p>\n<ul>\n<li style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote><p>Texto originalmente publicado em <a href=\"https:\/\/www.udc.es\/dep\/lx\/cac\/sopirrait\/sr059.htm\"><b>\u00c7opyright 59<\/b><\/a>, 8 abril 1998<\/p><\/blockquote>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A linguagem n\u00e3o \u00e9 a vida, a linguagem d\u00e1 ordens \u00e0 vida; a vida n\u00e3o fala, a vida escuta e espera Gilles Deleuze e F\u00e9lix Guattari Monolinguismo social. Consigna reacion\u00e1ria, fal\u00e1cia acr\u00edtica publicitada por uma ideologia pol\u00edtico-lingu\u00edstica aparentemente dominada mas passiva de ser dominante. Bilinguismo social. Emp\u00edrica, cient\u00edfica e democr\u00e1tica consigna usada pela atual ideologia pol\u00edtico-lingu\u00edstica dominante para ocultar a din\u00e2mica de um limpo, harm\u00f3nico e equilibrado genoc\u00eddio cultural que exclui desnecess\u00e1rias e caras efus\u00f5es de sangue ou v\u00edsceras. Par de conceitos excludentes? Ou apenas duas formas, nacionalmente determinadas, de conceber a externidade do processo de controlo social atrav\u00e9s da <\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":241,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[29,54,55,5],"class_list":["post-233","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-orientacoes","tag-diglossia","tag-mario-j-herrero-valeiro","tag-monolinguismo","tag-sociolinguistica","has_thumb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=233"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":245,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233\/revisions\/245"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/241"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}