{"id":248,"date":"2020-12-14T07:41:30","date_gmt":"2020-12-14T07:41:30","guid":{"rendered":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/?p=248"},"modified":"2020-12-14T13:24:46","modified_gmt":"2020-12-14T13:24:46","slug":"o-bardo-na-bretema-abutres-elegantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/2020\/12\/14\/o-bardo-na-bretema-abutres-elegantes\/","title":{"rendered":"O bardo na br\u00eatema : Abutres Elegantes"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">O primeiro requisito para um compositor \u00e9 estar morto, escreveu em 1951 Arthur Honegger no seu livro <em>Je suis compositeur.<\/em> A frase soa a profeta da desgra\u00e7a, ou p\u00e1ssaro de mau agouro, a acompanhar a vida dos criadores da m\u00fasica erudita, mas, na realidade, n\u00e3o passa de uma constata\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Vivaldi, apesar de alguns \u00eaxitos em vida, morreu em Viena num total esquecimento e s\u00f3 no s\u00e9culo XX foi recuperado o seu legado. Mozart foi atirado numa vala comum, baixo o triste olhar do seu c\u00e3o, \u00fanico amigo que o seguiu at\u00e9 ao cemit\u00e9rio e, hoje, toda a \u00c1ustria vive do trabalho dele. Bach, a quem agora reverenciamos como um deus, foi ignorado por mais de um s\u00e9culo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Seguindo o Princ\u00edpio Copernicano de que \u201cn\u00e3o somos o centro do universo\u201d, podemos amortecer a impetuosidade criativa e diluirmo-nos na mediania geral. Esse Princ\u00edpio Copernicano sup\u00f5e que a localiza\u00e7\u00e3o do observador provavelmente n\u00e3o seja especial e, portanto, sentir-se o centro n\u00e3o \u00e9 uma perspetiva correta. No conjunto do universo, o planeta terra \u00e9 mais um entre milh\u00f5es de planetas, pelo que a perce\u00e7\u00e3o de um terr\u00edcola, quando observa a imensid\u00e3o celeste, \u00e9 relativa. Galileo Galilei, defensor das ideias de Cop\u00e9rnico, foi condenado pelo tribunal da Inquisi\u00e7\u00e3o em 1616, por amea\u00e7ar o umbigo de um deus sem habilita\u00e7\u00f5es astron\u00f3micas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_254\" aria-describedby=\"caption-attachment-254\" style=\"width: 422px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-254\" src=\"https:\/\/aa.academiagalega.org\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Nicolai_Copernici_torinensis_De_revolutionibus_orbium_coelestium.djvu_-759x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"422\" height=\"569\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-254\" class=\"wp-caption-text\">P\u00e9 de foto: Nicolaus Copernicus, De revolutionibus orbium coelestium (1543).<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Modernamente, J. Richard Gott recuperou aquele racioc\u00ednio Copernicano<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, tamb\u00e9m conhecido como o Princ\u00edpio de Mediocridade, para calcular a queda do muro de Berlin ou a extin\u00e7\u00e3o da humanidade. A f\u00f3rmula de Gott tamb\u00e9m pode ser utilizada para averiguar o tempo de vida que vai ter uma obra musical, desde que o c\u00e1lculo n\u00e3o seja feito por um observador especial, que assiste ao seu in\u00edcio ou ao seu fim, pois, como o seu nome indica, a mediocridade n\u00e3o acontece nos extremos. Neste sentido h\u00e1 uma certa similitude com a curva dos valores do Quociente de Intelig\u00eancia (QI) na sociedade onde, para al\u00e9m de que os m\u00e9todos de medi\u00e7\u00e3o sejam mais ou menos \u00e9ticos e fi\u00e1veis, h\u00e1 um certo consenso em que aproximadamente um 82% da popula\u00e7\u00e3o encontra-se nos valores entre 80 e 120. As minorias acima e abaixo desses valores sofrem uma exist\u00eancia de inadapta\u00e7\u00e3o \u00e0 \u2018mediocridade\u2019. Os sobredotados e g\u00e9nios s\u00e3o muitas vezes discriminados por terem ideias \u2018muito complicadas\u2019 para uma cultura med\u00edocre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com muito bom olfato, os grandes traficantes da m\u00fasica sabem esperar pela defun\u00e7\u00e3o do compositor antes de explorar as suas obras. O compositor morto n\u00e3o reclama nem imp\u00f5e condi\u00e7\u00f5es molestas. Se consultarmos as grandes, e mesmo as pequenas programa\u00e7\u00f5es de festivais, orquestras, grupos de c\u00e2mara e solistas que preenchem os concertos de m\u00fasica erudita das diversas salas e institui\u00e7\u00f5es, assim como as salas de aula das institui\u00e7\u00f5es de ensino da m\u00fasica, constata-se que, em geral, as obras de compositores vivos s\u00e3o quase inexistentes ou puramente aned\u00f3ticas; h\u00e1, contudo, merit\u00f3rias exce\u00e7\u00f5es que s\u00f3 confirmam a regra. O repert\u00f3rio incide uma e outra vez numa liturgia necr\u00f3latra com cad\u00e1veres primorosos para abutres elegantes. A desculpa para n\u00e3o apresentar as obras que nos s\u00e3o contempor\u00e2neas e deveriam dizer-nos respeito, quase sempre se baseia no hipot\u00e9tico gosto do p\u00fablico. Gosto que a eles corresponderia desenvolver e aperfei\u00e7oar pois ningu\u00e9m sabe se gosta ou n\u00e3o daquilo que n\u00e3o conhece. Na m\u00fasica, e nas artes em geral, a oferta \u00e9 quem cria a procura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesta cultura economicista o poder de decis\u00e3o est\u00e1 nas m\u00e3os de indiv\u00edduos med\u00edocres, adoradores do bezerro de ouro que s\u00f3 promovem aqueles que lhes lustrem o ego. Mas se n\u00e3o h\u00e1 compositores, escritores e artistas que nos empurrem a imaginar outros futuros poss\u00edveis, nem os abutres elegantes conseguem sobreviver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a9 2020 by Rudesindo Soutelo<br \/>\n(Vila Praia de \u00c2ncora: 29-10-2020)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>NOTAS:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Gott, JR. (1993). Implications of the Copernican principle for our future prospects. <em>Nature<\/em> 363, pp. 315\u2013319.<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro requisito para um compositor \u00e9 estar morto, escreveu em 1951 Arthur Honegger no seu livro Je suis compositeur. A frase soa a profeta da desgra\u00e7a, ou p\u00e1ssaro de mau agouro, a acompanhar a vida dos criadores da m\u00fasica erudita, mas, na realidade, n\u00e3o passa de uma constata\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Vivaldi, apesar de alguns \u00eaxitos em vida, morreu em Viena num total esquecimento e s\u00f3 no s\u00e9culo XX foi recuperado o seu legado. 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