{"id":27,"date":"2020-11-03T10:04:29","date_gmt":"2020-11-03T10:04:29","guid":{"rendered":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/?p=27"},"modified":"2020-11-03T10:52:08","modified_gmt":"2020-11-03T10:52:08","slug":"dous-modelos-de-sociolinguistica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/2020\/11\/03\/dous-modelos-de-sociolinguistica\/","title":{"rendered":"Dous modelos de sociolingu\u00edstica"},"content":{"rendered":"<p align=\"JUSTIFY\">Uma linha de trabalho que poderia ser delineada, no \u00e2mbito da disciplina de conhecimento identificada como sociolingu\u00edstica, \u00e9 a procura de uma teoria geral ou, alternativamente, teorias explicativas parciais. Na perspetiva do investigador com pretens\u00e3o de cientificidade, o avan\u00e7o do conhecimento precisa de esquemas capazes de abranger e explicar a maior parte dos casos conhecidos, constituindo-se em guia de hip\u00f3teses e alvo de contrasta\u00e7\u00e3o com os factos observados. Neste ponto um dos reptos \u00e9 a universalidade, \u00e9 chegar a explica\u00e7\u00f5es com validade intercultural.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Para fazer um breve apontamento do problema acudirei ao livro de Llu\u00eds V. Aracil <em>Do Latim \u00e0s L\u00ednguas Nacionais. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria social das L\u00ednguas Europeias<\/em> (AAGP, Braga, 2004), em que se incluiu uma pormenorizada an\u00e1lise da obra araciliana, \u201cDizer o sentido\u201d, da autoria de Josep Conill. Neste trabalho faz refer\u00eancia a dois paradigmas ou teorias gerais da sociolingu\u00edstica, em que se inserem conce\u00e7\u00f5es divergentes e talvez contrapostas:<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>a)<\/strong> A araciliana do <strong>conflito lingu\u00edstico<\/strong>, nascida do artigo \u00abConflit linguistique et normalisation linguistique dans l\u2019Europe nouvelle\u00bb [que] sup\u00f5e em certo sentido uma revis\u00e3o das quest\u00f5es plantejadas por \u00abComunidad nacional, comunidad supranacional\u00bb, mas agora analisadas de uma perspetiva netamente sociolingu\u00edstica e com um refinamento te\u00f3rico muito superior\u201d.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O modelo desenvolve conceitos novos e aparentemente contradit\u00f3rios. Explica-as Conill, sucintamente:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cTal delineamento equivale \u2014mesmo se Aracil n\u00e3o o disse de forma expl\u00edcita\u2014 a considerar o sistema lingu\u00edstico como um sistema <em>aberto<\/em>, sempre em equil\u00edbrio prec\u00e1rio por causa das coer\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias procedentes do meio ambiente social. Conforme aos princ\u00edpios da cibern\u00e9tica da \u00e9poca (Bertalanffy, 1968), caberia levar na linha de conta, tamb\u00e9m, as duas possibilidades de resposta sist\u00e9mica a estas coer\u00e7\u00f5es: por um lado, a retroalimenta\u00e7\u00e3o <em>[feedback]<\/em> negativa (= normaliza\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica), respons\u00e1vel pelos comportamentos \u00abpropositivos\u00bb ou auto-regulados; e por outra, a retroalimenta\u00e7\u00e3o positiva (= substitui\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica), referida aos processos auto-catal\u00edticos ou de crescimento do sistema. No primeiro caso, podemos afirmar que este actua no sentido de reduzir a entropia interna. No segundo, por contra, a entropia sofre um acrescentamento e todo o sistema se encaminha para a sua dissolu\u00e7\u00e3o. O conflito, ent\u00e3o, consistir\u00e1 no stresse provocado pelas disfun\u00e7\u00f5es do sistema lingu\u00edstico respeito dos reptos procedentes do pr\u00f3prio entorno\u201d.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>b)<\/strong> A fergusoniana da <strong>diglossia<\/strong>, sobre a qual Conill faz a seguinte aprecia\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201co que resulta evidente neste caso \u00e9 a dist\u00e2ncia existente entre o modelo araciliano e a diglossia, tanto no referente \u00e0 vers\u00e3o fergusoniana original do conceito quanto \u00e0 taxonomia posterior de Joshua A. Fishman, onde aparece em combina\u00e7\u00e3o com o bilinguismo. Em muitos sentidos, trata-se de equacionamentos <em>opostos<\/em>. O modelo conflitual de Aracil pretende dar conta de um processo<em> din\u00e2mico<\/em>, que tem pouca rela\u00e7\u00e3o com o <em>estatismo<\/em> caracter\u00edstico da diglossia (Aracil, 1978).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Caberia dizer que a <em>estaticidade<\/em> assinalada por Conill representa a <em>normalidade<\/em>, o que Ant\u00f3nio Gil nomeara como <em>correlacionamento digl\u00f3ssico,<\/em> entre uma forma alta e unit\u00e1ria da l\u00edngua, tanto no plano escrito como na ortofonia, e os falares, diversos pela sua natureza.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Na Galiza, os posicionamentos a favor da diglossia entre as falas regionais galegas e a Norma Galega do Portugu\u00eas s\u00e3o o modelo proposto pela Academia Galega da L\u00edngua Portuguesa, assumido e praticado por um n\u00famero crescente de utentes, numerosos ativistas e defensores dos direitos lingu\u00edsticos, na esteira do melhor humanismo europeu, que foi a base para a cria\u00e7\u00e3o das atuais l\u00ednguas europeias. Uma dignidade entendida como o processo de esfor\u00e7o, pessoal e coletivo.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O facto de equacionar a sua necessidade assinala o caminho de uma tomada de consci\u00eancia. Muda a rela\u00e7\u00e3o entre os utentes e o objeto-l\u00edngua. O distanciamento ou estranhamento percebido num primeiro momento entre o falar familiar, espont\u00e2neo, do utente, e a formalidade do padr\u00e3o lingu\u00edstico proposto, fica compensado pela perce\u00e7\u00e3o de utilidade e refor\u00e7o da identidade, no plano pessoal como indiv\u00edduo, e no plano coletivo, como povo diferenciado.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O modelo sociolingu\u00edstico da diglossia \u00e9, na realidade, o das l\u00ednguas nacionais em situa\u00e7\u00e3o de normalidade \u2013 veja-se, para o caso, o exemplo da professora Marinus Pires de Lima, com a sociolingu\u00edstica portuguesa das diferen\u00e7as na fala. Seria mais adequado afirmar que o modelo de conflito lingu\u00edstico serve para compreender descrever a situa\u00e7\u00e3o das chamadas \u2018l\u00ednguas minorizadas\u2019, objeto do <em>Bureau europ\u00e9en pour les langues moins r\u00e9pandues?<\/em> Conseguir uma hipot\u00e9tica integra\u00e7\u00e3o entre ambos os modelos \u00e9 um repto interessante, que nos poderia conduzir a uma melhor compreens\u00e3o da realidade, e do nosso labor na sociedade.<\/p>\n<ul>\n<li>\n<blockquote><p>Extrato da comunica\u00e7\u00e3o \u00abSociolingu\u00edsica e cientificidade na Galiza\u00bb (2003).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/s\/cc387b846a\">Ler na \u00edntegra<\/a>.<strong><br \/>\n<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma linha de trabalho que poderia ser delineada, no \u00e2mbito da disciplina de conhecimento identificada como sociolingu\u00edstica, \u00e9 a procura de uma teoria geral ou, alternativamente, teorias explicativas parciais. 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