{"id":310,"date":"2021-01-22T08:32:15","date_gmt":"2021-01-22T08:32:15","guid":{"rendered":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/?p=310"},"modified":"2021-01-22T08:35:01","modified_gmt":"2021-01-22T08:35:01","slug":"henrique-o-infante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/2021\/01\/22\/henrique-o-infante\/","title":{"rendered":"Henrique, o Infante"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">Na sec\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria de qualquer grande livraria portuguesa encontra-se um n\u00famero consider\u00e1vel de livros sobre a \u00e9poca da expans\u00e3o mar\u00edtima e n\u00e3o poucos sobre o per\u00edodo colonial p\u00f3s-confer\u00eancia de Berlim. S\u00e3o os dous per\u00edodos hist\u00f3ricos, um quase como sombra do outro, com mais presen\u00e7a no discurso p\u00fablico portugu\u00eas. Por outro lado s\u00e3o recorrentes as refer\u00eancias, em publica\u00e7\u00f5es e no discurso p\u00fablico, a l\u00edderes da na\u00e7\u00e3o, paternalistas, autorit\u00e1rios e vision\u00e1rios. O paradigma da propaganda salazarista colocou \u00e0 frente destes guias da na\u00e7\u00e3o o Infante D. Henrique, figura central do Padr\u00e3o dos Descobrimentos em Lisboa. O Padr\u00e3o, criado para a exposi\u00e7\u00e3o do Mundo Portugu\u00eas de 1940 e reconstru\u00eddo em 1960, nos 500 anos da morte do Infante, \u201csintetiza um passado glorioso e simboliza a grandeza da obra do Infante D. Henrique, o impulsionador das descobertas\u201d, como se pode ler a dia de hoje na p\u00e1gina do monumento<a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote1sym\" name=\"sdendnote1anc\"><sup>i<\/sup><\/a>. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-312 \" src=\"https:\/\/aa.academiagalega.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Padrao.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"395\" \/>Apesar da import\u00e2ncia da figura, n\u00e3o contamos com muitas biografias acess\u00edveis para nos achegarmos a ela. A biografia do historiador Peter Russell, <\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><i>Prince Henry \u201cthe navegator\u201d. A life<\/i><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">, est\u00e1 h\u00e1 tempo esgotada. No mercado contamos apenas com a biografia do historiador Jo\u00e3o Paulo Oliveira e Costa<a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote2sym\" name=\"sdendnote2anc\"><sup>ii<\/sup><\/a>, diretor do Centro de Hist\u00f3ria d\u2019Aqu\u00e9m e d\u2019Al\u00e9m Mar (CHAM) da Universidade Nova de Lisboa. Li esta biografia com a expectativa aproximar-me o mais poss\u00edvel \u00e0 mundivid\u00eancia de personagem t\u00e3o central em t\u00e3o central momento da hist\u00f3ria moderna como foi o come\u00e7o da expans\u00e3o mar\u00edtima do ocidente europeu. Cada facto relatado da vida do Infante est\u00e1 apoiado com variada e s\u00f3lida documenta\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 menos real na leitura uma certa tend\u00eancia para a ordena\u00e7\u00e3o teleol\u00f3gica dos factos narrados, conducentes \u00e0 descolagem dos assuntos reinos ib\u00e9ricos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio portugu\u00eas. Subjaz uma ideia de destino nacional do que esta \u201cfam\u00edlia real que tutelava os destinos de Portugal\u201d da que o Infante fazia parte como quarto filho do rei D. Jo\u00e3o I (p\u00e1gina 188) seria vision\u00e1ria guia.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">O livro fornece outros dados de interesse para reconstruirmos a mundivid\u00eancia do Infante. Chama \u00e0 aten\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa mentalidade a coexist\u00eancia da influ\u00eancia dos romances arturianos na forma\u00e7\u00e3o da aristocracia da \u00e9poca, a cren\u00e7a no maravilhoso e na possibilidade constante do milagre como solu\u00e7\u00e3o, cren\u00e7a que o autor diz ser mais forte no Infante do que nos seus parentes, e a promo\u00e7\u00e3o que ele mesmo fez do conhecimento cient\u00edfico mais avan\u00e7ado na \u00e9poca. Este homem com mentalidade de militar medieval, de honra e cavalaria, com t\u00e3o profunda forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, geriu neg\u00f3cios, financiou a universidade com o neg\u00f3cio do a\u00e7\u00facar da Madeira e fez da cidade de Lagos, no Algarve, um grande centro dinamizador do conhecimento, em cartografia, constru\u00e7\u00e3o naval, t\u00e9cnicas e instrumentos de navega\u00e7\u00e3o, astronomia e matem\u00e1tica, que permitiu a grande mudan\u00e7a da navega\u00e7\u00e3o de cabotagem para a navega\u00e7\u00e3o astron\u00f3mica. Deste modernismo \u00e9 exemplo o t\u00edtulo do livro com que o Infante procurava exercer influ\u00eancia junto do Papa, <\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><i>Horologium fidei<\/i><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">, do franciscano mestre frei Andr\u00e9 do Prado. O livro, sendo de mat\u00e9ria teol\u00f3gica, p\u00f5e em primeiro plano esse instrumento de medi\u00e7\u00e3o que \u00e9 o rel\u00f3gio como s\u00edmbolo da novidade e a rutura da ideia comum do mundo at\u00e9 ent\u00e3o conhecido provocada pelas navega\u00e7\u00f5es promovidas pelo Infante. <img decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-313 \" src=\"https:\/\/aa.academiagalega.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Henrique.jpg\" alt=\"\" width=\"345\" height=\"509\" \/><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">Outros dados da biografia ajudam a reconstruir o cen\u00e1rio das rela\u00e7\u00f5es entre os reinos ib\u00e9ricos no s\u00e9culo XV, das rela\u00e7\u00f5es com a Inglaterra e das rela\u00e7\u00f5es entre o reino de Portugal e as pot\u00eancias emergentes do Mediterr\u00e2neo. No primeiro \u00e2mbito comenta o autor o problema social suscitado pela paz a seguir \u00e0 batalha de Aljubarrota, o uso da interven\u00e7\u00e3o militar como meio de afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a mentalidade de guerreiro cruzado que orientou o Infante, elementos sem os que n\u00e3o se entende a empresa da tomada de Ceuta em 1415, facto hist\u00f3rico t\u00e3o marcante para a hist\u00f3ria do Ocidente europeu. A rela\u00e7\u00e3o familiar do Infante com a Inglaterra, atrav\u00e9s da sua m\u00e3e, D. Filipa de Lencastre, a \u00fanica mulher retratada no Padr\u00e3o dos Descobrimentos, \u00e9 largamente comentada no livro, assim como as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de Portugal com a Inglaterra na sequ\u00eancia do assassinato nosso bem conhecido Pedro I. Da presen\u00e7a de atores origin\u00e1rios do Mediterr\u00e2neo no processo da expans\u00e3o mar\u00edtima e do eco internacional das empresas do Infante s\u00e3o sinal a conspira\u00e7\u00e3o mediterr\u00e2nica para que Ceuta n\u00e3o fosse devolvida para a liberta\u00e7\u00e3o do Infante D. Fernando, o elogio que o humanista Bracciolini faz do Infante, que ele considera superior aos her\u00f3is da Antiguidade Alexandre ou C\u00e9sar, o relato do navegador veneziano Alvise Cadamosto, que ao servi\u00e7o do Infante explorou a costa ocidental africana, e, sobretudo, a influ\u00eancia dos cart\u00f3grafos da Escola de Maiorca.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">Outros dados completam o retrato da personalidade do Infante e a nossa aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 sua mundivid\u00eancia. De especial interesse me parecem as refer\u00eancias \u00e0 castidade de Nuno \u00c1lvares Pereira, her\u00f3i de Aljubarrota, e do pr\u00f3prio Infante. Peter Russell referia-se ao Infante como \u201co menos sentimental dos homens\u201d (p\u00e1gina 193) e o pr\u00f3prio autor desta biografia descreve-o como \u201credoma imune \u00e0 carne\u201d (p\u00e1gina 367). Outro elemento fundamental para entendermos o Infante como personagem m\u00edtico \u00e9 a sua liga\u00e7\u00e3o com o extremo ocidental do Algarve. D. Henrique fez um pedido para fazer um eremit\u00e9rio no cabo S\u00e3o Vicente a seguir \u00e0 conquista de Ceuta em 1415. Foi para Sagres, nas imedia\u00e7\u00f5es do cabo, que se retirou numa esp\u00e9cie de desterro depois do desastre de T\u00e2nger em 1437, que resultou na pris\u00e3o e morte do infante D. Fernando, irm\u00e3o do pr\u00f3prio D. Henrique. O autor refere a crise espiritual do \u201casceta com remorsos\u201d (p\u00e1ginas 240-1). Por outro lado n\u00e3o deixa de notar a do mundo greco-latino na cria\u00e7\u00e3o da \u201cvila do Infante\u201d. Quando o Infante usa o termo \u201ca minha vila\u201d est\u00e1 a usar a sem\u00e2ntica latina do termo. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">Considerando que quem se interessar na Galiza pelas rela\u00e7\u00f5es com Portugal tem de alargar os seus referentes culturais, sociais e hist\u00f3ricos, a leitura desta biografia \u00e9 \u00fatil n\u00e3o s\u00f3 pela informa\u00e7\u00e3o sobre o per\u00edodo hist\u00f3rico em que viveu o Infante, mas tamb\u00e9m pelo eco da interpreta\u00e7\u00e3o comum da sua centralidade na decis\u00e3o do rumo, ou destino, hist\u00f3rico de Portugal. Por outro lado, considerando que n\u00e3o se entende a independ\u00eancia de Portugal sem a habilidade das suas elites para as rela\u00e7\u00f5es internacionais e o estabelecimento de uma rede de alian\u00e7as no Atl\u00e2ntico e no Mediterr\u00e2neo que dessem outra dimens\u00e3o ao reino emergente, o livro permite-nos conhecer um per\u00edodo chave desse processo e os seus protagonistas, D. Jo\u00e3o I, D. Filipa de Lencastre e os seus seis filhos, que na hist\u00f3ria de Portugal v\u00eam sendo denominados pelo ep\u00edteto que Lu\u00eds de Cam\u00f5es lhes atribuiu n\u2019<\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><i>Os Lus\u00edadas<\/i><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">, a \u201c\u00ednclita gera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/span> <span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">Para al\u00e9m da r\u00e9plica da imagem mitificada do personagem como vision\u00e1rio e construtor dos alicerces do imp\u00e9rio portugu\u00eas, que por habitual nunca me deixa de causar algum estranhamento, nesta biografia h\u00e1 espa\u00e7o quer para a imagem que dele tinham os humanistas contempor\u00e2neos como paradigma do novo conhecimento do mundo e r\u00e9plica das grandezas dos her\u00f3is da Antiguidade quer para os aspetos mais sombrios da sua personalidade, os seus remorsos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pris\u00e3o e morte do seu irm\u00e3o em T\u00e2nger e o seu papel no in\u00edcio do tr\u00e1fico de seres humanos desde a costa ocidental africana. <\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p align=\"justify\"><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<div id=\"sdendnote1\">\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote1anc\" name=\"sdendnote1sym\">i<\/a> <span style=\"color: #0000ff;\"><u><a href=\"https:\/\/padraodosdescobrimentos.pt\/padrao-dos-descobrimentos\/\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">https:\/\/padraodosdescobrimentos.pt\/padrao-dos-descobrimentos\/<\/span><\/a><\/u><\/span><\/p>\n<div id=\"sdendnote2\">\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote2anc\" name=\"sdendnote2sym\">ii<\/a> <span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">Jo\u00e3o Paulo Oliveira e Costa, <\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><i>Henrique, o Infante<\/i><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">, A Esfera dos Livros, 2013<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na sec\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria de qualquer grande livraria portuguesa encontra-se um n\u00famero consider\u00e1vel de livros sobre a \u00e9poca da expans\u00e3o mar\u00edtima e n\u00e3o poucos sobre o per\u00edodo colonial p\u00f3s-confer\u00eancia de Berlim. 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