{"id":318,"date":"2021-02-01T09:54:00","date_gmt":"2021-02-01T09:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/?p=318"},"modified":"2021-02-01T12:22:17","modified_gmt":"2021-02-01T12:22:17","slug":"ricardo-carvalho-calero-na-minha-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/2021\/02\/01\/ricardo-carvalho-calero-na-minha-memoria\/","title":{"rendered":"Ricardo Carvalho Calero na minha mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 30 anos que Ricardo Carvalho Calero nos deixou, no 25 de mar\u00e7o de 1990. Todos estes anos foi proscrito por ver entre os cegos. Ao se romper o sil\u00eancio conspirativo e ser homenageado no dia das Letras Galegas de 2020, o que dizer? Pouco presta repetir o consabido. Se poss\u00edvel, no retrato \u00e9 melhor dar o inaudito. Os de trato espor\u00e1dico entesouramos viv\u00eancias breves com mais cobi\u00e7a que os que tiveram a fortuna de trat\u00e1-lo por anos desorbitando o valor da mem\u00f3ria, sem evitar o orgulho de ser testemunhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de v\u00ea-lo, conheci a obra. O primeiro texto que lembro ter lido \u00e9 o pr\u00f3logo \u00e0 obra completa do Cabanilhas, editada no Centro Galego de Buenos Aires em 1959; na barroca fac\u00fandia nota-se o amor \u00e0 l\u00edngua. No \u201977, no in\u00edcio dos cursos de galego, estud\u00e1vamos a tersa l\u00edngua de <em>A Gente da Barreira<\/em>. Depois cruzei com ele cartas sobre assuntos lingu\u00edsticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeira vez que o vi foi em Ourense no outono de 1984, no I <em>Congresso Internacional da L\u00edngua Galego-Portuguesa na Galiza<\/em>. Baixo, atilado, olhar agudo, singelo e af\u00e1vel, de natural dignidade. Falava preciso pesando as palavras. Vejo-nos a conversar nos jantares e ceias no comedor do <em>Hotel San Martin<\/em>, sempre na companhia da sua mulher, antes que as magistrais interven\u00e7\u00f5es no congresso. Tenho comigo um exemplar dedicado do livro <em>Letras Galegas<\/em>, editado pela AGAL e apresentado ent\u00e3o. Queixava-se de com as pressas n\u00e3o lhe terem posto colof\u00e3o. Na dedicat\u00f3ria teve um lapso: \u201c<em>Ao bom amigo Higino Martinez Estevez, ao <\/em><em>conhec\u00ea-lo de vista em Ourense, o 19 de agosto de 1984. R. Carvalho<\/em>\u201d. Era 19 de outubro. Lapso de s\u00e1bio sumido em pensamentos, mas atento ao do interlocutor. Quisera convocar aqui cada uma dessas conversas, mas a mem\u00f3ria \u00e9 fraca e sinuosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1985 faziam-se cem anos da morte de Rosalia. Em Buenos Aires organizou-se o II <em>Simp\u00f3sio Internacional da L\u00edngua Galego-Portuguesa<\/em>, dedicado a ela no quadro dos cursos de galego no Instituto Argentino de Cultura Galega, aos impulsos do lembrado Abraira, o inc\u00f3modo \u201ctav\u00e3o\u201d, tal qual ele mesmo gostava de ser qualificado. A presidente da AGAL (Associa\u00e7om Galega da L\u00edngua), Dra. Maria do Carmo Henr\u00edquez, viajou a Buenos Aires e com ela trouxe o professor. Para a cr\u00f3nica fiel desses dias temos as notas jornal\u00edsticas e as suas palestras no simp\u00f3sio, e depois na SADE (a Sociedade Argentina de Escritores) sobre a import\u00e2ncia internacional de Rosalia, todas comoventes.<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-324 alignleft\" src=\"https:\/\/aa.academiagalega.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/II-SIMPOSIO-Internaciona-II.jpg\" alt=\"\" width=\"603\" height=\"405\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desses dias lembro mais os col\u00f3quios nas comidas no meu lar e no restaurante <em>Sorrento <\/em>da rua Corrientes. Vejo a sua viva defesa do amor-paix\u00e3o como valor irredut\u00edvel, agudas hip\u00f3teses a respeito de poemas rosalianos, pesquisas na vida da poeta e etimologias. Fal\u00e1vamos com o d\u00f3 dos filhos do s\u00e9c. XX pela decad\u00eancia do cinema como fen\u00f3meno social. De palavra s\u00f3bria, nada enf\u00e1tica, interrogante na busca do matiz. Acusada caracter\u00edstica sua era que escut\u00e1-lo tinha o mesmo efeito que l\u00ea-lo. Injusto me far\u00e1 a mem\u00f3ria, mas apenas lembro tal rasgo em F\u00e9lix Luna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais f\u00e1cil v\u00eam outras mem\u00f3rias n\u00e3o convocadas. Por caso, gostou muito do linguado ao queijo azul e da torta de leite preso, naturalizados na cozinha do Rio da Prata. A viajar sem a companheira, bem nos inculcaram por idade e estima acompanh\u00e1-lo e proteg\u00ea-lo zelosamente. Foi um prazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A derradeira vez que o vi foi no outono de 1987, no II Congresso da AGAL. Como sinal de partida, a imagem que vejo \u00e9 a solene, ele a falar no paraninfo da Universidade de Santiago abrindo o Congresso com toda a honra e pompa. O que me ocorre depois som as socr\u00e1ticas caminhadas pelas ruas de Santiago. \u00c9ramos v\u00e1rios mo\u00e7os a caminhar com ele: Montero Santalha, Monterroso, Gil Hern\u00e2ndez, Estraviz e algum outro que perdoar\u00e1 o esquecimento. Na Porta Faxeira, pela rua do Vilar, sentados numa cafetaria, ou caminho da casa. Falava-se no presente e o futuro da reintegra\u00e7\u00e3o. Comunicava paz, n\u00e3o a enervante, ao inv\u00e9s, uma serenidade de olhos abertos para organizar as for\u00e7as com efic\u00e1cia e sem despesas in\u00fateis. Acautelava-nos de ter a ast\u00facia necess\u00e1ria e empenhar o esfor\u00e7o preciso no confronto, que a alternativa n\u00e3o era a vit\u00f3-ria de outros, sen\u00e3o a morte da Galiza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O vazio que deixou foi inesperadamente duro. Al\u00e9m do afeto que bem sabia ganhar, a falta sua veo ser muito sentida pela condi\u00e7\u00e3o de guia numa singradura com poucas estrelas, como elo generacional, pai bom e autor fecundo at\u00e9 o derradeiro dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0O tempo acalma dores e estagna feridas, os disc\u00edpulos a crescer sempre madurecem. Com certeza sabemos tamb\u00e9m que a sua obra continuar\u00e1 a falar com toda a voz por muito tempo e que, semente poderosa, germinar\u00e1 e frutificar\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 30 anos que Ricardo Carvalho Calero nos deixou, no 25 de mar\u00e7o de 1990. Todos estes anos foi proscrito por ver entre os cegos. Ao se romper o sil\u00eancio conspirativo e ser homenageado no dia das Letras Galegas de 2020, o que dizer? Pouco presta repetir o consabido. Se poss\u00edvel, no retrato \u00e9 melhor dar o inaudito. Os de trato espor\u00e1dico entesouramos viv\u00eancias breves com mais cobi\u00e7a que os que tiveram a fortuna de trat\u00e1-lo por anos desorbitando o valor da mem\u00f3ria, sem evitar o orgulho de ser testemunhas. Antes de v\u00ea-lo, conheci a obra. O primeiro texto que <\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":320,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[71,20],"class_list":["post-318","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-vozes","tag-higino-martins-esteves","tag-ricardo-carvalho-calero","has_thumb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/318","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=318"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/318\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":334,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/318\/revisions\/334"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/320"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=318"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=318"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=318"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}