{"id":353,"date":"2021-03-02T10:09:20","date_gmt":"2021-03-02T10:09:20","guid":{"rendered":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/?p=353"},"modified":"2021-03-02T10:09:54","modified_gmt":"2021-03-02T10:09:54","slug":"o-outro-exilio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/2021\/03\/02\/o-outro-exilio\/","title":{"rendered":"O outro ex\u00edlio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lvaro Cunqueiro d\u00e1 not\u00edcia no artigo \u201cInvestigaci\u00f3n sobre trasnos\u201d (La Voz de Galicia, 31\/05\/58) de um trasno que vivia no pa\u00e7o dos reis de Portugal, chamado Merito Merito, que tinha por h\u00e1bito esconder sapatos. A atividade do trasno, segundo Cunqueiro, levou os reis a criarem o cargo de \u201ccurador de borzeguins\u201d, cargo que durou at\u00e9 aos tempos do Marqu\u00eas de Pombal, quem o aboliu, segundo Cunqueiro, porque n\u00e3o o considerava apropriado \u201c\u00e0s luzes do s\u00e9culo\u201d. De vez em quando dou em imaginar-me como um Merito Merito a desarrumar os sapatos dos \u201chistoriadores nacionais\u201d, focando-me em certos moldes narrativos em que se vai contendo o fluxo dos acontecimentos da nossa vida coletiva e que n\u00e3o ficam bem a toda a gente, como sapatos que apertam ou v\u00e3o largos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-355 size-full alignright\" src=\"https:\/\/aa.academiagalega.org\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/O-outro-exilio.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"602\" \/>Um desses moldes narrativos, muito utilizado nos reinos ib\u00e9ricos no s\u00e9culo XIX, \u00e9 o de imaginar a hist\u00f3ria como uma sequ\u00eancia alternada de idades \u00e1ureas e tempos de decad\u00eancia. Temos um exemplo de refer\u00eancia na palestra proferida por Antero de Quental \u201cCausas da decad\u00eancia dos povos peninsulares\u201d (1871). As ideias de Antero vinham na sequ\u00eancia das ideias de Alexandre Herculano e por sua vez tiveram influ\u00eancia na hist\u00f3ria de Oliveira Martins, de quem se fez eco Castel\u00e3o na sua \u201cAlva de gl\u00f3ria\u201d para dizer que na hist\u00f3ria n\u00e3o h\u00e1 mais que mortos e que a cr\u00edtica hist\u00f3rica n\u00e3o \u00e9 um debate, mas uma senten\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suced\u00e2neos destes moldes narrativos s\u00e3o os relatos escolares que absorvemos nos anos 70-80 em que se nos falava dos \u00c1ustrias maiores e menores, da idade \u00e1urea do imp\u00e9rio espanhol e do seu decl\u00ednio. Nos relatos escolares portugueses Afonso de Albuquerque, segundo governador da \u00cdndia portuguesa, \u201cC\u00e9sar do Oriente\u201d e \u201cMarte portugu\u00eas\u201d, \u00e9 uma das figuras da tal \u00e9poca \u00e1urea do imp\u00e9rio. Longe de mim querer contribuir para o julgamento de tal figura hist\u00f3rica. N\u00e3o quero fazer parte dessa historiografia das senten\u00e7as de Oliveira Martins. S\u00f3 tenho como prop\u00f3sito nesta leitura comentar a singular biografia de um homem que foi literalmente marcado por Albuquerque e compreender, conhecendo a sua vida, a dualidade do tempo hist\u00f3rico que viveu, tempo de avan\u00e7os cient\u00edficos e, simultaneamente, de imposi\u00e7\u00e3o de uma identidade \u00fanica sob a ordem da Igreja cat\u00f3lica como nunca se tinha conhecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fern\u00e3o Lopes, o protagonista desta biografia, hom\u00f3nimo do cronista que viveu cem anos antes, era um jovem fidalgo lisboeta na altura em que, com o desejo de ganhar fama e fortuna, embarcou com Afonso de Albuquerque em 1506 na carreira da \u00cdndia. Consta que ter\u00e1 nascido judeu e que se fez crist\u00e3o-novo com a convers\u00e3o for\u00e7ada por D. Manuel I em 1497. Na sua viagem conheceu a brutalidade e viol\u00eancia extrema de Albuquerque no seu ataque \u00e0 cidade de Ormuz e na conquista de Goa em 1510. Na cidade indiana Fern\u00e3o Lopes desertou, converteu-se ao Isl\u00e3o e ficou \u00e0s ordens do sult\u00e3o de Bijapur. Seguiu com estas decis\u00f5es o caminho de n\u00e3o poucos estrangeiros (no livro at\u00e9 s\u00e3o mencionados conversos galegos), em especial um nada desprez\u00edvel n\u00famero de portugueses. As motiva\u00e7\u00f5es para os elevados \u00edndices de deser\u00e7\u00e3o prendiam-se com a vida dif\u00edcil dos soldados portugueses na \u00cdndia e a possibilidade de ascens\u00e3o social na sociedade de acolhimento, onde n\u00e3o encontravam a discrimina\u00e7\u00e3o racial estruturante na sociedade de origem. N\u00e3o sendo a convers\u00e3o condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 mobilidade social, \u00e9 mais dif\u00edcil descobrir os motivos que levaram uma boa parte destes desertores a abra\u00e7ar o Isl\u00e3o, especialmente se consideramos que a continuidade das cruzadas e o \u00f3dio aos mu\u00e7ulmanos tamb\u00e9m faziam parte do caldo ideol\u00f3gico da expans\u00e3o mar\u00edtima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Novamente convertido, agora ao Isl\u00e3o, e ao servi\u00e7o do sult\u00e3o de Bijapur, Fern\u00e3o Lopes combateu os seus compatriotas. Derrotado o sult\u00e3o e na sequ\u00eancia das negocia\u00e7\u00f5es entre este e os portugueses, Albuquerque exigiu a entrega de Fern\u00e3o Lopes, o que veio a acontecer. A puni\u00e7\u00e3o de Albuquerque foi brutal. Durante v\u00e1rios dias submeteu Fern\u00e3o Lopes a um castigo em pra\u00e7a p\u00fablica que resultou na mutila\u00e7\u00e3o da sua m\u00e3o direita, do polegar da m\u00e3o esquerda e do nariz. Fern\u00e3o Lopes sobreviveu e passou anos como mendigo em Goa. S\u00f3 depois da morte de Albuquerque obteve o perd\u00e3o do rei e decidiu voltar para Lisboa, onde tinha deixado mulher e filho dez anos antes. Na viagem o seu navio deteve-se na ilha de Santa Helena, no Atl\u00e2ntico Sul. Foi nessa paragem que a sua vida deu uma nova reviravolta: fugiu e escondeu-se na ilha onde passaria o resto da sua vida, trinta anos, sozinho, que s\u00f3 foram interrompidos pelo mandado do rei D. Jo\u00e3o III de ele voltar a Lisboa. Quando o rei lhe perguntou qual era o seu desejo simplesmente pediu para voltar \u00e0 ilha. Antes de regressar, por ordem do rei, ainda visitou o papa Clemente VII. Na viagem para Santa Helena, a ilha que havia sido descoberta poucos anos antes, em 1502, pelo navegante galego Jo\u00e3o da Nova, que seguia na mesma viagem em que Fern\u00e3o Lopes rumou a Goa, levava consigo sementes de \u00e1rvores de fruto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este livro \u00e9 singular pela hist\u00f3ria do biografado e tamb\u00e9m pelo autor da biografia, Abdul Rahman Azzam, doutorado em Hist\u00f3ria pela universidade de Oxford, mu\u00e7ulmano, eg\u00edpcio, conselheiro da fam\u00edlia real de Catar, segundo diz a nota biogr\u00e1fica que dele se encontram na badana do livro. Penso que do melhor que esta \u00e9poca nos permite \u00e9 dispormos desta pluralidade de relatos sobre os mesmos factos, que podem desorientar alguns como se tivessem perdido os sapatos. Vale a pena estar com aten\u00e7\u00e3o a esta polifonia, a esta voz diversa que neste livro fala do h\u00e1bito portugu\u00eas de contar a hist\u00f3ria da na\u00e7\u00e3o \u201ccomo um combate ao Isl\u00e3o e as suas aventuras ultramarinas como um prolongamento das cruzadas\u201d (p\u00e1gina 96) ou que interpreta que a perce\u00e7\u00e3o de \u201cdescoberta\u201d dos portugueses quando chegam \u00e0 \u00cdndia se explica porque eles \u00e9 que estavam previamente isolados f\u00edsica e intelectualmente, cousa que n\u00e3o acontecia aos mercadores mu\u00e7ulmanos, presentes em todos os portos do \u00cdndico aos que os portugueses chegassem desde havia s\u00e9culos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m do exerc\u00edcio das maneiras de contar a hist\u00f3ria h\u00e1 o testemunho vital que este livro transmite. A sua leitura deixa gravada na mem\u00f3ria a hist\u00f3ria de sobreviv\u00eancia deste homem violentamente mutilado, como conseguiu plantar \u00e1rvores na ilha, subsistir e, ainda, querer a ela regressar, recusando qualquer outro oferecimento vindo das cabe\u00e7as da hierarquia do mundo imperial, o rei e o papa. Ele, que partiu de Lisboa sendo um fidalgo, um militar, que foi \u00e0 \u00cdndia \u00e0 procura de fortuna, \u00e9 um caso extremo da hist\u00f3ria do trauma que vai acompanhando como uma sombra a hist\u00f3ria dos imp\u00e9rios. Faz pensar, agora que levamos quase um ano isolados, na sua solid\u00e3o no meio do Atl\u00e2ntico e no imenso sil\u00eancio em que viveu durante tr\u00eas d\u00e9cadas. Sabe-se que manteve a lucidez e a eloqu\u00eancia, porque assim o retrataram os contempor\u00e2neos que dele deixaram registo na viagem que fez por ordem do rei quando j\u00e1 tinha passado uma d\u00e9cada na ilha. Fica a pergunta, que o autor se faz, de se manteve os rituais da religi\u00e3o ou o que pode ter pensado perante o \u201cmist\u00e9rio do sil\u00eancio\u201d, que identidade encontrou este homem que se tinha convertido duas vezes dentro das religi\u00f5es de Abra\u00e3o. A.R. Azzam sublinha a mensagem de esperan\u00e7a que para ele conta a hist\u00f3ria de Fern\u00e3o Lopes: na nossa diversidade todos temos um lugar ao que pertencemos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c1lvaro Cunqueiro d\u00e1 not\u00edcia no artigo \u201cInvestigaci\u00f3n sobre trasnos\u201d (La Voz de Galicia, 31\/05\/58) de um trasno que vivia no pa\u00e7o dos reis de Portugal, chamado Merito Merito, que tinha por h\u00e1bito esconder sapatos. 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