{"id":391,"date":"2021-06-09T11:06:59","date_gmt":"2021-06-09T11:06:59","guid":{"rendered":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/?p=391"},"modified":"2021-09-15T11:40:21","modified_gmt":"2021-09-15T11:40:21","slug":"o-bardo-na-bretema-axiomas-enigmaticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/2021\/06\/09\/o-bardo-na-bretema-axiomas-enigmaticos\/","title":{"rendered":"O Bardo na Br\u00eatema: Axiomas enigm\u00e1ticos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A br\u00eatema, esse nevoeiro que vem do mar, nem sempre nos oculta o que est\u00e1 para al\u00e9m, porque al\u00e9m de n\u00f3s h\u00e1 outros sentires que a n\u00e9voa molda, amolda, adequa e acomoda em silenciosas saudades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontrar padr\u00f5es \u00e9 a ess\u00eancia da matem\u00e1tica, assim como a da m\u00fasica. Os matem\u00e1ticos e os m\u00fasicos dedicam-se a procurar modelos, mas a matem\u00e1tica, tal como a m\u00fasica, n\u00e3o \u00e9 perfeita e, por isso, uma e outra s\u00e3o ci\u00eancia e n\u00e3o cren\u00e7a. Em 1931 \u2500quatro anos ap\u00f3s ser divulgado o Princ\u00edpio de Incerteza por Heisenberg\u2500 Kurt G\u00f6del provou, com os Teoremas da Incompletude<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, as limita\u00e7\u00f5es intr\u00ednsecas dos sistemas axiom\u00e1ticos, exceto os mais banais, e mostrou as fissuras da l\u00f3gica matem\u00e1tica, acabando, assim, com a proposta de David Hilbert para demonstrar que a aritm\u00e9tica era consistente e sem contradi\u00e7\u00f5es internas, ou seja, que qualquer axioma ou declara\u00e7\u00e3o verdadeira sobre as matem\u00e1ticas sempre teria uma prova, ainda que fosse muito dif\u00edcil de encontrar, como aconteceu com o \u00faltimo teorema de Fermat, que precisou de 350 anos para ser provado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">G\u00f6del permitiu que as matem\u00e1ticas falassem de si mesmas, como um sistema autorreferencial, e orientou a sua tese de doutoramento a demonstrar que h\u00e1 declara\u00e7\u00f5es verdadeiras que nenhum sistema matem\u00e1tico pode demonstrar. Provou aquilo que na m\u00fasica, os compositores eruditos, fazem, desde h\u00e1 s\u00e9culos, com uma s\u00e9rie de regras que permitem deduzir utiliza\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas e consistentes, conformando os axiomas das obras mas sendo conscientes de que nem todas as proposi\u00e7\u00f5es de uma obra de arte podem ser demonstradas. Entre a verdade e a sua prova h\u00e1 uma fenda. A genialidade do compositor est\u00e1, precisamente, em criar obras consistentes, sem contradi\u00e7\u00f5es, mas razoavelmente imprevis\u00edveis, e isso s\u00f3 se consegue com axiomas que n\u00e3o podem ser provados. Um famoso exemplo \u00e9 o acorde do <em>Trist\u00e3o e Isolda<\/em> de Wagner. \u00c9 um axioma que gera grandes controv\u00e9rsias anal\u00edticas. \u00c9 consistente e coerente no discurso mas ningu\u00e9m o consegue provar de modo irrefut\u00e1vel dentro do sistema axiom\u00e1tico da m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os music\u00f3logos, sendo de letras, t\u00eam tend\u00eancia a usar linguagens hermen\u00eauticas para falar das verdades que n\u00e3o se podem provar, numa esp\u00e9cie de m\u00edstica sobrenatural, mas a m\u00fasica, por ser a express\u00e3o mais formosa da ci\u00eancia matem\u00e1tica, tamb\u00e9m \u00e9 abstrata e autorreferencial, e s\u00f3 no seu pr\u00f3prio sistema \u00e9 que se pode descrever com precis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-393 alignleft\" src=\"https:\/\/aa.academiagalega.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Aldrei-Entrecontar-210x300.jpg\" alt=\"\" width=\"273\" height=\"390\" \/>No s\u00e9culo XIX, quando nasceu a musicologia europeia, proliferaram os intentos de demonstrar que todas as m\u00fasicas contavam uma hist\u00f3ria liter\u00e1ria, e se a partitura n\u00e3o tivesse texto ou programa explicativo, inventavam um para que aquela burguesia triunfante acreditasse que tamb\u00e9m possu\u00eda os segredos da arte sonora. Era uma interpreta\u00e7\u00e3o que menorizava o pr\u00f3prio sistema musical e que teve alguns detratores not\u00e1veis como o cr\u00edtico austr\u00edaco Eduard Hanslick, que enfrentou com coragem \u201caquela apodrecida est\u00e9tica do sentimento\u201d em favor do conte\u00fado musical<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a incompletude n\u00e3o atinge s\u00f3 as ci\u00eancias matem\u00e1ticas, e portanto a m\u00fasica erudita, mas tamb\u00e9m as outras artes e mesmo a literatura, onde os axiomas que n\u00e3o podem ser provados estimulam o imagin\u00e1rio coletivo e nos elevam por cima da prosaica realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cultura que se estende pelo territ\u00f3rio do antigo reino suevo, a incompletude da vida manifesta-se na integra\u00e7\u00e3o natural da presen\u00e7a da morte num cont\u00ednuo vital, em harmonia de exist\u00eancias paralelas a socorrer-se mutuamente. \u201cA br\u00eatema veio do cemit\u00e9rio\u201d, \u201co nevoeiro era o alento da morte\u201d, \u201ca festa no adro \u00e9 dos vivos e dos mortos\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> escreve Iolanda Aldrei em <em>Entrecontar<\/em>, onde evoca esse mundo de c\u00e1 e de l\u00e1 sem qualquer contradi\u00e7\u00e3o nem recurso a folclorismos, provando que a ess\u00eancia de uma cultura n\u00e3o reside na express\u00e3o dos seus populares mas na capacidade de recriar o seu imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-394 alignright\" src=\"https:\/\/aa.academiagalega.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Arins-seique-209x300.jpg\" alt=\"\" width=\"241\" height=\"346\" \/>Outro exemplo, radicalmente diferente, \u00e9 <em>seique<\/em> de Susana Sanches Arins, que trata a repress\u00e3o da ditadura franquista, com o seu intermin\u00e1vel regueiro de corpos sem vida, e com os pr\u00f3prios assassinos a apagar as provas. Refere que \u201cos fundos da falange est\u00e3o higienizados, depurados, tosquiados, purgados, mundos e limpos. quem n\u00e3o quis figurar neles teve tempo de apagar as pegadas, o nome, as fotografias, o endere\u00e7o e o trabalho. o tio manuel deveu de ser desses\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. A escrita, consistente, utiliza s\u00f3 letras min\u00fasculas, talvez porque uma hist\u00f3ria de barb\u00e1rie t\u00e3o cruel s\u00f3 pode ser contada desde a perspectiva minorada das v\u00edtimas, e essa transgress\u00e3o das regras ortogr\u00e1ficas gera um novo axioma que n\u00e3o pode ser provado no seu pr\u00f3prio sistema, mas potencia o imagin\u00e1rio antifascista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Theodor W. Adorno diz que \u201cas obras de arte que se apresentam sem res\u00edduo \u00e0 reflex\u00e3o e ao pensamento n\u00e3o s\u00e3o obras de arte\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> portanto n\u00e3o basta com encontrar padr\u00f5es, h\u00e1 que preench\u00ea-los de axiomas enigm\u00e1ticos pois \u201ctoda a obra aut\u00eantica prop\u00f5e a solu\u00e7\u00e3o do seu enigma insol\u00favel\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a> onde se acomodam as silenciosas saudades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a9 2021 by Rudesindo Soutelo<br \/>\n(Vila Praia de \u00c2ncora: 24-05-2021)<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/strong> Capas dos livros Entrecontar e Seique<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> G\u00f6del, K. (1986). <em>Collected Works, Volume I, Publications 1929-1936. <\/em>New York: Oxford University Press, pp. 144-195<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Hanslick, E. (2002). <em>Do Belo Musical<\/em>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, p. 11.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Aldrei, I. (2020). <em>Entrecontar<\/em>. Santiago (Galiza): Atrav\u00e9s Editora, pp.14, 28.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Sanches-Arins, S. (2019). <em>seique<\/em>. Santiago (Galiza): Atrav\u00e9s Editora, p. 157.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Adorno, T.W. (2008). <em>Teoria est\u00e9tica<\/em>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, p. 188.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Ibid. p. 197.<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A br\u00eatema, esse nevoeiro que vem do mar, nem sempre nos oculta o que est\u00e1 para al\u00e9m, porque al\u00e9m de n\u00f3s h\u00e1 outros sentires que a n\u00e9voa molda, amolda, adequa e acomoda em silenciosas saudades. Encontrar padr\u00f5es \u00e9 a ess\u00eancia da matem\u00e1tica, assim como a da m\u00fasica. Os matem\u00e1ticos e os m\u00fasicos dedicam-se a procurar modelos, mas a matem\u00e1tica, tal como a m\u00fasica, n\u00e3o \u00e9 perfeita e, por isso, uma e outra s\u00e3o ci\u00eancia e n\u00e3o cren\u00e7a. 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