{"id":399,"date":"2021-07-15T07:25:37","date_gmt":"2021-07-15T07:25:37","guid":{"rendered":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/?p=399"},"modified":"2021-07-15T08:28:35","modified_gmt":"2021-07-15T08:28:35","slug":"o-bardo-na-bretema-a-vaca-nao-da-leite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/2021\/07\/15\/o-bardo-na-bretema-a-vaca-nao-da-leite\/","title":{"rendered":"O Bardo na Br\u00eatema : A vaca n\u00e3o d\u00e1 leite"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A escola p\u00fablica da ditadura franquista, que eu frequentava, era muito cinzenta, mas aos dez anos levaram-me, na cidade de Vigo, para o Instituto \u2500Masculino, como correspondia \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o mental do poder. Ali, no ano preparat\u00f3rio, tive dois excelentes professores que me iluminaram outros horizontes, Emilio Joaqu\u00edn Freijeiro Garc\u00eda nas letras e Manuel Copena Ara\u00fajo nas ci\u00eancias. Este \u00faltimo fez a grande diferen\u00e7a na minha vida, pois, de um modo simples e estimulador, introduziu-me na l\u00f3gica matem\u00e1tica fugindo das receitas memorizadas e aprendi a compreender a abstra\u00e7\u00e3o da sua linguagem. Sem ele, nem eu, o sabermos, descobriu-me os segredos da m\u00fasica. Curiosamente, aquele professor fora um c\u00e9lebre dianteiro, avan\u00e7ado, e m\u00e1ximo goleador do clube Celta de Vigo, com a alcunha de <em>Nolete,<\/em> nos anos trinta e quarenta do s\u00e9culo XX. Essa parte da sua l\u00f3gica, a desportiva, nunca me cativou. Alguns anos depois, soube que militava num partido pol\u00edtico aberrante, como era a Falange, talvez por c\u00e1lculo de sobreviv\u00eancia, pois n\u00e3o conhe\u00e7o acusa\u00e7\u00f5es de ele participar nas razias falangistas que assassinaram impunemente milheiros de pessoas, muitas delas ainda hoje em valas comuns desconhecidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante todo aquele ano letivo, com o meu colega de carteira, brincava a imaginar como seria o mundo dentro de um milh\u00e3o de anos. Aquelas ideias disparatadas mantinham as nossas mentes em constante excita\u00e7\u00e3o, criando imagens com todos os pormenores f\u00edsicos dos objetos. O neurocientista Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio refere que \u201cas imagens que comp\u00f5em a nossa mente resultam de uma atividade neural perfeitamente regimentada que transmite os modelos ao c\u00e9rebro\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, e assim aprofundava no racioc\u00ednio l\u00f3gico da fantasia. O resultado final desse ano foi ter 10 valores sobre 10 em todas as disciplinas. Ent\u00e3o decidi ser m\u00fasico, concretamente, compositor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 entrara para o Conservat\u00f3rio de M\u00fasica e a l\u00f3gica da matem\u00e1tica preencheu de sentido a abstra\u00e7\u00e3o sonora. Comecei a escrever can\u00e7\u00f5es para os amores plat\u00f3nicos e percebi que as palavras s\u00f3 atrapalhavam as minhas fantasias sonoras. Descobri que, para al\u00e9m das musiquetas que o meu contexto social e familiar me proporcionava, existia uma linguagem musical mais complexa que ativava o sistema de recompensa do meu c\u00e9rebro de um modo muito mais intenso. Na <em>Psicologia della musica<\/em>, Daniele Sch\u00f6n afirma que a palavra \u2018m\u00fasica\u2019 n\u00e3o representa uma simples estrutura ac\u00fastica, mas \u00e9 uma experi\u00eancia subjetiva complexa, baseada num conjunto de capacidades mentais e que precisam de diversas fun\u00e7\u00f5es percetivas e cognitivas<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com dez anos podemos transformar qualquer obst\u00e1culo num desafio vital, porque as ideias borbulham espontaneamente e em quantidades inesgot\u00e1veis. Por\u00e9m, a escolaridade vai formatando os indiv\u00edduos e limitando os contextos de criatividade, pelo que as ideias perdem o vigor e a frescura original para se transformarem em c\u00f3pias recicladas, toler\u00e1veis e politicamente corretas. As ideias s\u00e3o gratuitas, mas a cultura economicista esfor\u00e7a-se em convert\u00ea-las num bem escasso para vender a pre\u00e7os elevados.<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-402 size-large aligncenter\" src=\"https:\/\/aa.academiagalega.org\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/cow_parade-1024x525.png\" alt=\"\" width=\"730\" height=\"374\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leio num jornal espanhol que \u201co pintor das vacas que colonizaram as cidades europeias n\u00e3o pintava os seus quadros\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. Fumiko Negishi reclamou a autoria de 221 obras assinadas pelo pintor pop Antonio de Felipe e o tribunal reconheceu que n\u00e3o basta ter a ideia porque sem execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 arte. Fumiko trabalhou como assalariada durante dez anos para De Felipe concretizando em obras terminadas os rascunhos ou ideias que ele lhe entregava. Depois, assinadas por ele, que considerava as suas ideias acima de qualquer realiza\u00e7\u00e3o, mercantilizava o trabalho art\u00edstico dela. A ju\u00edza do caso entendeu que o valor de uma obra est\u00e1 na sua realiza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o na inten\u00e7\u00e3o de faz\u00ea-la, pois, como reza o ditado popular, de boas inten\u00e7\u00f5es est\u00e1 o inferno cheio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ant\u00f3nio de Felipe que se considera o pai das vacas da <em>Cow Parade<\/em> que invadiram tantas cidades por todo o planeta, lamenta que de todo o leite que elas deram n\u00e3o lhe tenham pago direitos pela ideia, que, segundo afirma, era sua<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. Confesso, ainda que n\u00e3o o possa demonstrar, que naquele primeiro ano no Instituto Santa Irene de Vigo eu j\u00e1 tivera a ideia de p\u00f4r uma vaca a fazer uma grande bosta na porta principal, quando nos visitou Pilar Primo de Rivera, a falangista que quiseram casar com Adolf Hitler e que proclamava, alto e feio, que \u201cas mulheres nunca descobrem nada; falta-lhes o talento criador que deus reserva para as intelig\u00eancias varonis\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>, mas eu n\u00e3o tinha a vaca para materializar aquela cintilante imagina\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que as ideias s\u00e3o intang\u00edveis e n\u00e3o geram direitos. Para evitar que se apropriem das nossas ideias luminosas, o melhor \u00e9 realiz\u00e1-las de imediato, porque sendo brilhantes qualquer um pode dar com elas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o tempo aprendi que se quisermos o leite da vaca, h\u00e1 que ordenh\u00e1-la. Por muito que o p\u00f3s-modernismo nos tenha dito que o mundo era uma jun\u00e7\u00e3o de simulacros \u2500<em>fictum<\/em>\u2500, ele n\u00e3o deixou de ser um conjunto de realidades \u2500<em>factum<\/em>\u2500 e n\u00e3o basta pensar, h\u00e1 que materializar aquilo que se pensa porque a vaca, de <em>motu proprio<\/em>, n\u00e3o d\u00e1 leite.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a9 2021 by Rudesindo Soutelo<br \/>\n(Vila Praia de \u00c2ncora: 15-06-2021)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>NOTAS:<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Dam\u00e1sio, A. (2020). <em>Sentir &amp; saber. A caminho da Consci\u00eancia<\/em>. Lisboa: C\u00edrculo de Leitores, p. 86.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Sch\u00f6n, D., Akiva-Kaviri, L., &amp; Vecchi, T. (2013). <em>Psicologia della musica<\/em>. Roma: Carocci, p. 97<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> https:\/\/www.eldiario.es\/cultura\/artista-antonio-felipe-condenado-reconocer-no-unico-autor-cuadros_1_7997769.html<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> https:\/\/www.elperiodico.com\/es\/dominical\/20150616\/antonio-de-felipe-ahora-pinto-con-mas-garra-que-nunca-4280431<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Soler Gallo, M. (2018). S\u00e9 mujer antes que estudiante: El ideal de mujer universit\u00e1ria de la Secci\u00f3n Femenina durante el primer lustro del franquismo. Em Y. Romano Mart\u00edn, S. Vel\u00e1zquez Garcia, &amp; M. Bianchi, <em>La mujer en la historia de la universidad. Retos, compromiso y logros.<\/em> (pp. 75-87). Salamanca: Aquilafuente \u2013 Universidad de Salamanca, p. 79.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escola p\u00fablica da ditadura franquista, que eu frequentava, era muito cinzenta, mas aos dez anos levaram-me, na cidade de Vigo, para o Instituto \u2500Masculino, como correspondia \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o mental do poder. Ali, no ano preparat\u00f3rio, tive dois excelentes professores que me iluminaram outros horizontes, Emilio Joaqu\u00edn Freijeiro Garc\u00eda nas letras e Manuel Copena Ara\u00fajo nas ci\u00eancias. Este \u00faltimo fez a grande diferen\u00e7a na minha vida, pois, de um modo simples e estimulador, introduziu-me na l\u00f3gica matem\u00e1tica fugindo das receitas memorizadas e aprendi a compreender a abstra\u00e7\u00e3o da sua linguagem. 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