{"id":407,"date":"2021-09-15T11:37:54","date_gmt":"2021-09-15T11:37:54","guid":{"rendered":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/?p=407"},"modified":"2021-09-15T11:40:51","modified_gmt":"2021-09-15T11:40:51","slug":"o-bardo-na-bretema-o-ph-do-conhecimento-phd","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/2021\/09\/15\/o-bardo-na-bretema-o-ph-do-conhecimento-phd\/","title":{"rendered":"O Bardo na Br\u00eatema : O pH do conhecimento PhD"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA cultura \u00e9 uma observ\u00e2ncia. Ou pelo menos pressup\u00f5e uma observ\u00e2ncia\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><strong>,<\/strong> escrevia em 1949 Ludwig Wittgenstein nos seus apontamentos manuscritos. No mesmo ano, Albert Einstein afirmava que o conhecimento existe em duas formas: inerte, guardado nos livros, ou vivo, na consci\u00eancia das pessoas; e considerava que a segunda forma era a essencial<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>. Mas Arist\u00f3teles j\u00e1 nos esclarecera que o conhecimento pela demonstra\u00e7\u00e3o constitu\u00eda o saber<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A natureza \u00e9 f\u00edsica<strong>,<\/strong> no entanto os humanos t\u00eam a capacidade de a transformar em cultura, recriando e transcendendo os seus significados, mesmo que n\u00e3o alterem as propriedades. Esse cultivo da natureza acrescenta um sentido novo \u00e0 ordem f\u00edsica e estabelece a ponte entre o mundo e o esp\u00edrito. A cultura n\u00e3o existe na natureza; ela s\u00f3 se manifesta pela a\u00e7\u00e3o humana e assim como n\u00e3o h\u00e1 cultura sem pessoas, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 pessoas sem cultura. A cultura \u00e9 o patrim\u00f3nio acumulado que cada gera\u00e7\u00e3o recebe do seu contexto social e do qual precisa para proceder em comunidade; al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 homog\u00e9nea e no mesmo grupo humano gera-se um pluralismo cultural onde h\u00e1 manifesta\u00e7\u00f5es que podem ser melhores do que outras. Uma vez assimiladas, as formas culturais s\u00e3o como uma continua\u00e7\u00e3o da natureza, numa simbiose que se torna dif\u00edcil distinguir entre o f\u00edsico e o simb\u00f3lico; contudo, nenhuma cultura deriva da ess\u00eancia da humanidade, ainda que se travem guerras pelo predom\u00ednio de umas sobre as outras. A cultura aprende-se e transmite-se, mas instala-se na mente, n\u00e3o nos genes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conhecimento, afirma Edgar Morin, \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o que extra\u00edmos do universo. O importante n\u00e3o s\u00e3o os dados mas o c\u00e1lculo que realizamos com as unidades de informa\u00e7\u00e3o que retiramos ao ru\u00eddo. A vida \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o computacional, uma dimens\u00e3o cognitiva indiferenciada, pois esse conhecimento n\u00e3o se conhece a si pr\u00f3prio. O c\u00e9rebro n\u00e3o computa diretamente os est\u00edmulos; computa apenas as computa\u00e7\u00f5es que os seus neur\u00f3nios fazem. Analogamente, conhecer \u00e9 produzir uma tradu\u00e7\u00e3o das realidades do mundo exterior<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O saber \u00e9 um conhecimento reflexivo de \u00edndole interdisciplinar e \u00e2mbito mais vasto. Historicamente, a filosofia foi sin\u00f3nimo do saber racional e da ci\u00eancia, um sistema que abrangia a totalidade do conhecimento, da\u00ed que em muitas Universidades o grau acad\u00e9mico mais elevado se denomine <em>Philosophiae Doctor<\/em> ou PhD. Isto faz lembrar a famosa m\u00e1xima de Jos\u00e9 de Letamendi, que figura no pedestal da est\u00e1tua de Abel Salazar, fundador do Instituto Biol\u00f3gico do Porto: \u201cO m\u00e9dico que s\u00f3 sabe de medicina, nem de medicina sabe\u201d.<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-409 alignleft\" src=\"https:\/\/aa.academiagalega.org\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/escala-de-ph-1.jpg\" alt=\"\" width=\"510\" height=\"420\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria bom dispor de uma escala similar \u00e0 do pH, que poder\u00edamos denominar como \u2018potencial Habilitador\u2019, para medir a intensidade da grandeza interdisciplinar dos PhD, e assim podermos evitar tanto os doutores que s\u00f3 sabem da sua \u00e1rea cient\u00edfica ignorando o resto (conhecimento \u00e1cido), como os que sabem de tudo desconhecendo o pr\u00f3prio (conhecimento alcalino). S\u00f3 aqueles que se encontram no centro da tabela (pH equilibrado ou neutro), cumpririam os requisitos de sabedoria de um PhD. Al\u00e9m do mais, tamb\u00e9m os candidatos a doutorandos deveriam demonstrar esse equil\u00edbrio no conhecimento interdisciplinar e, desse modo, eu talvez n\u00e3o tivesse que passar pela vergonha alheia quando recebo propostas, sempre com a desculpa de estarem muito ocupados, para escrever-lhes a tese. Fique aqui a dica para que as institui\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias tratem da sua honra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As unidades de conhecimento necess\u00e1rias para alcan\u00e7ar a sabedoria n\u00e3o abundam e \u00e9 assustadora a quantidade de PhD incapazes de relacionar a sua especialidade com o desenvolvimento sustent\u00e1vel do mundo em que habitam. Fico espantado quando algu\u00e9m que atingiu o n\u00edvel mais alto na forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria declara, sem qualquer pudor, que n\u00e3o l\u00ea nada para al\u00e9m da sua \u00e1rea, ou, falando de m\u00fasica, desagua no relativismo opin\u00e1vel e equipara o pimba com Mozart.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os m\u00fasicos eruditos n\u00e3o s\u00e3o diferentes e muito poucos conseguem relacionar as obras que tocam com o mundo em que vivem, porque se \u2018s\u00f3 sabem de m\u00fasica, nem disso sabem\u2019, e da\u00ed que, olhando para o repert\u00f3rio que preenche a programa\u00e7\u00e3o da imensa maioria das salas de concerto, pare\u00e7am animadores dum museu arqueol\u00f3gico. S\u00f3 um pequeno grupo revela o seu vasto saber divulgando a m\u00fasica que nos \u00e9 contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Informa\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o. \u201cA educa\u00e7\u00e3o pela m\u00fasica \u00e9 capital, porque o ritmo e a harmonia penetram mais fundo na alma e afetam-na mais fortemente, trazendo consigo a perfei\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>, razoava Plat\u00e3o. Raz\u00e3o t\u00e9cnica, raz\u00e3o pr\u00e1tica e raz\u00e3o te\u00f3rica, \u201ce com raz\u00e3o, honraria as coisas belas, e com elas se alimentaria e tornar-se-ia um cidad\u00e3o perfeito\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>. A cultura, o conhecimento e o saber.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Vila Praia de \u00c2ncora: 20-07-2021<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong>NOTAS:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Wittgenstein, L. (1996). <em>Cultura e valor<\/em>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, p. 121.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Einstein, A. (1954). <em>Ideas and Opinions<\/em>. New York: Crown, p. 80.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Arist\u00f3teles. <em>Anal\u00edticos segundos<\/em>, livro I, \u00a72, 71b 16-18. Em \u00d3rganon II.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Morin, E. (2008). <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao pensamento complexo<\/em>. Lisboa: Instituto Piaget, pp. 159-161.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Plat\u00e3o. <em>A Rep\u00fablica<\/em>. Livro III, 401d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> <em>Ibid<\/em>., 401e.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA cultura \u00e9 uma observ\u00e2ncia. Ou pelo menos pressup\u00f5e uma observ\u00e2ncia\u201d, escrevia em 1949 Ludwig Wittgenstein nos seus apontamentos manuscritos. No mesmo ano, Albert Einstein afirmava que o conhecimento existe em duas formas: inerte, guardado nos livros, ou vivo, na consci\u00eancia das pessoas; e considerava que a segunda forma era a essencial. Mas Arist\u00f3teles j\u00e1 nos esclarecera que o conhecimento pela demonstra\u00e7\u00e3o constitu\u00eda o saber. A natureza \u00e9 f\u00edsica, no entanto os humanos t\u00eam a capacidade de a transformar em cultura, recriando e transcendendo os seus significados, mesmo que n\u00e3o alterem as propriedades. Esse cultivo da natureza acrescenta um sentido <\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":113,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[27],"class_list":["post-407","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-vozes","tag-rudesindo-soutelo","has_thumb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/407","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=407"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/407\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":412,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/407\/revisions\/412"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/113"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=407"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=407"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=407"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}