{"id":499,"date":"2025-07-22T14:03:42","date_gmt":"2025-07-22T14:03:42","guid":{"rendered":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/?p=499"},"modified":"2025-07-23T09:03:16","modified_gmt":"2025-07-23T09:03:16","slug":"lostrego-e-bretema-a-eterna-dualidade-do-ser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/2025\/07\/22\/lostrego-e-bretema-a-eterna-dualidade-do-ser\/","title":{"rendered":"L\u00f3strego e br\u00e9tema, a eterna dualidade do ser"},"content":{"rendered":"<hr \/>\n<p style=\"text-align: left;\"><b>Por <a href=\"https:\/\/www.academiagalega.gal\/component\/k2\/item\/1983-adela-clorinda-figueroa-panisse.html\"><span class=\"elementor-icon-list-text elementor-post-info__item elementor-post-info__item--type-author\">Adela Figueroa Panisse<\/span><\/a><\/b><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-thumbnail wp-image-500\" src=\"https:\/\/aa.academiagalega.org\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Adela_Figueroa_2-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/p>\n<p>Na reuni\u00e3o do acordo ortogr\u00e1fico de 1990 acordou-se incorporar <em><a title=\"\" href=\"https:\/\/dicionario.priberam.org\/l%C3%B4strego\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">l\u00f4strego<\/a><\/em>\u00a0e\u00a0<em><a title=\"br\u00eatema\" href=\"https:\/\/dicionario.priberam.org\/br%C3%AAtema\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">br\u00eatema<\/a><\/em>, termos reconhecidos como galegos, nos dicion\u00e1rios da L\u00edngua Portuguesa, como o \u00e9 o\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/dicionario.priberam.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Priberam<\/a>. Dados neste dicion\u00e1rio, como regionalismos e com o significado de rel\u00e2mpago e nevoeiro, respetivamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixa de ser algo sugerente que estas duas palavras galegas, fossem incorporadas juntas como fazendo parte do mundo da lusofonia.<\/p>\n<p>Foi o acad\u00e9mico Ant\u00f3nio Gil Hern\u00e1ndez quem nos lembrou este fato no laudat\u00f3rio feito\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/pgl.gal\/pesar-pela-morte-de-jose-luis-fontenla-rodrigues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">para Jos\u00e9 Lu\u00eds Fontenla durante o seu funeral<\/a>. Sinalizando o reconhecimento destes dous termos como uma das conclus\u00f5es do encontro de pa\u00edses da lusofonia para o acordo ortogr\u00e1fico, realizado em Lisboa e ao que assistiram ambos, como representantes da Galiza.<\/p>\n<p><em>L\u00f4strego<\/em>\u00a0e\u00a0<em>br\u00eatema<\/em>, s\u00e3o a luz e a escurid\u00e3o. A dualidade do mundo. Nomeadamente do galego, de incertezas e de duplicidades. De elementos nunca bem definidos, mas sempre de m\u00faltiplas possibilidades de ser. Como \u00e9 o nosso mundo. Um mundo baseado na vida, nos processos biol\u00f3gicos. Na cultura da terra que pode dar abund\u00e2ncia ou pode tudo negar por azares que dependem de for\u00e7as alheias a n\u00f3s. Um eterno\u00a0<em>\u201casegum\u201d<\/em>\u00a0um eterno\u00a0<em>\u201ctem dias\u201d<\/em> incorporado ao nosso di\u00e1rio viver que nos faz criar uma psicologia preparada para todo o que \u201cpossa vir\u201d. Elaborando recursos de sobreviv\u00eancia para al\u00e9m das contingenciais impostas polo contorno, os avatares e os imprevistos. Ainda estas duas palavras podem ser representativas de pessoalidade confusas, duplas e imprevis\u00edveis: \u201cDr Jekyll and Mister Hyde\u201d.<\/p>\n<p>Tal como somos a maior parte da gente. Mais umas mais do que outras. Todas temos agachado um Mister Hyde que pode causar dor e danos e ainda um doutor Jekyll am\u00e1vel, colaborador, e que nos ajuda a arranjar todos os problemas.<\/p>\n<p><em>L\u00f4strego\u00a0<\/em>\u00e9 um clar\u00e3o repentino, n\u00e3o qualquer g\u00e9nero de luz. Acontece, normalmente acompanhando a uma tormenta, com barulho de tronos e com chuva e tempo escuro. Mas permite caminhar na escuridade ainda que fosse por um tempo limitado: Salvar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Br\u00eatema\u00a0<\/em>oculta o caminho, confunde a vis\u00e3o, desdesenha os contornos. De \u00e1rvores e ra\u00edzes, de muros e valados, de regos e regatos. Dificultando o roteiro, pode-nos fazer cair inesperadamente e mancar-nos no nosso caminhar.<\/p>\n<p><em>L\u00f4strego\u00a0<\/em>e\u00a0<em>br\u00eatema\u00a0<\/em>, claridade e confus\u00e3o, eis a nossa vida: um conjunto desordenado de risos e prantos. De logros e fracassos, de amizades que agasalham nosso rumo e de pessoas atravessadas que nos fazem cambadela para provocar a nossa ca\u00edda, sem que saibamos bem porque fazem isso.<\/p>\n<p>Amor e \u00f3dio, ci\u00fames e vingan\u00e7a, aparecem no nosso relacionamento com outras pessoas, mesmo nem sabendo bem porque somos objeto da f\u00faria vingadora. Posse e generosidade, tudo cabe no mundo afetivo dos seres humanos. Assim como \u00e9 na natureza no fim do ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem mora na Galiza na beira mar sabe que depois duma boa tormenta as \u00e1guas fertilizam-se e a vida renova-se para darem bom marisco e todo tipo de peixe. C\u00e1, nesta Terra, as \u00e1guas das rias \u201cpurgam\u201d no fim do ver\u00e3o a causa dum fen\u00f3meno chamado \u201cemergulhan\u00e7a estival\u201d ou afloramentos de \u00e1guas frias procedentes dos fundos marinhos. A explos\u00e3o de vida \u00e9 tal que proliferam todo g\u00e9nero de algas e de micro-organismos. Alguns perigosos para a sa\u00fade por conter neuro toxinas, Outros cheios de luz produzem a luminesc\u00eancia chamada \u201cmar de ardora\u201d que alumia nossas costas como esses l\u00f4stregos de joia, que foram admitidos como l\u00e9xico do sistema galaico portugu\u00eas. As \u00e1guas frias procedentes dos fundos, que dificultam o banho, riqu\u00edssimas em nutrientes, s\u00e3o respons\u00e1veis do bom marisco das nossas costas. Tudo \u00e9 assim. Luz e br\u00eatema. Claros e escuros.<\/p>\n<p>Rosalia exprimia este sentimento de medo ou de precau\u00e7\u00e3o, perante a desgra\u00e7a que sempre amea\u00e7a \u00e0 felicidade. Como se uma n\u00e3o pudesse viver sem a outra.<\/p>\n<p>Este complexo de Pol\u00edcrates que impede gozar da felicidade por medo a que esta desapare\u00e7a, foi expresado por Antom Reixa e Antela Cid, na sua obra de teatro, \u201cM\u00edticas pero Secund\u00e1rias\u201d. N\u00e3o sem certa ironia, segundo Reixa \u201cpoder\u00eda ser unha sorte de\u00a0<strong>sabedor\u00eda cr\u00edtica ou preventiva propia dos galegos&#8221;<\/strong>.<\/p>\n<p>Complexo de Pol\u00edcrates ou duplicidade do ser. Com certeza, na vida acontece isto. Por cada luz existe uma escuridade, para cada l\u00f4strego fugaz e intenso, a br\u00eatema instala-se inevitavelmente, para nos dificultar o caminho. Mas, aten\u00e7\u00e3o! A br\u00eatema nunca \u00e9 obscuridade total. Sempre deixa uma m\u00ednima claridade que, se bem pode nos fazer trope\u00e7ar nalguma raiz que levante do terreno, tamb\u00e9m nos deixa caminhar se formos espertas em enxergar a meio do nevoeiro.<\/p>\n<p>Quando vivia em Pontevedra era frequente que tr\u00e1s um dia de calor se instalasse a n\u00e9voa ocultando o sol. A frase mais escutada era: \u201cisto \u00e9 apenas nevoeiro do mar\u201d. Significando, tanto o al\u00edvio da can\u00edcula, como a esperan\u00e7a de que logo iria levantar e voltaria luzir o sol.<\/p>\n<p>Deixo ir uma poesia de Rosalia de Castro sobre esse medo a desgra\u00e7a que paira sempre sobre a nossa felicidade que julgo bem representativa da idiossincrasia galega:<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-501\" src=\"https:\/\/aa.academiagalega.org\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/poema-rosalia.png\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"775\" \/><\/p>\n<p>[<strong>Referencia\u00a0<\/strong>:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.priberam.pt\/docs\/AcOrtog90.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.priberam.pt\/docs\/AcOrtog90.pdf<\/a>]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>Artigo publicado originalmente no <a href=\"https:\/\/pgl.gal\/lostrego-e-bretema-a-eterna-dualidade-do-ser\/\">Portal Galego da L\u00edngua<\/a> (pgl.gal).<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Adela Figueroa Panisse Na reuni\u00e3o do acordo ortogr\u00e1fico de 1990 acordou-se incorporar l\u00f4strego\u00a0e\u00a0br\u00eatema, termos reconhecidos como galegos, nos dicion\u00e1rios da L\u00edngua Portuguesa, como o \u00e9 o\u00a0Priberam. 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