{"id":557,"date":"2026-02-04T13:06:59","date_gmt":"2026-02-04T13:06:59","guid":{"rendered":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/?p=557"},"modified":"2026-02-04T13:06:59","modified_gmt":"2026-02-04T13:06:59","slug":"o-sochantre-de-cunqueiro-um-sochantre-que-nao-e-sochantre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aa.academiagalega.org\/index.php\/2026\/02\/04\/o-sochantre-de-cunqueiro-um-sochantre-que-nao-e-sochantre\/","title":{"rendered":"O sochantre de Cunqueiro: um sochantre que n\u00e3o \u00e9 sochantre"},"content":{"rendered":"<p>As <em>Cr\u00f3nicas do sochantre<\/em> (primeira edi\u00e7\u00e3o: Vigo 1956, Editorial Galaxia) \u00e9 um extraordin\u00e1rio livro de \u00c1lvaro Cunqueiro: um conjunto de hist\u00f3rias rebordantes de imagina\u00e7\u00e3o, contadas numa linguagem de bom dizer, no estilo que Cunqueiro manejava com m\u00e3o de mestre.<\/p>\n<p>\u00c9 sabido que a imagina\u00e7\u00e3o de \u00c1lvaro Cunqueiro \u00e9 t\u00e3o criativa que salta frequentemente por cima da realidade hist\u00f3rica, e at\u00e9 da verossimilitude, e seria descabido pretender exigir-lhe as qualidades de rigor que se esperam de um historiador. Tal despreocupa\u00e7\u00e3o pelo rigor hist\u00f3rico foi tamb\u00e9m habitual nos artigos jornal\u00edsticos de Cunqueiro\u00a0 \u2013o que n\u00e3o foi sempre bem recebido por alguns cr\u00edticos. Chegou a inventar poetas e poemas alheios inexistentes, que na realidade eram cria\u00e7\u00e3o (e inspira\u00e7\u00e3o) sua. Em Cunqueiro ficamos ami\u00fado desorientados, porque nunca sabemos se os dados curiosos e ins\u00f3litos de hist\u00f3ria cultural que ele cita s\u00e3o aut\u00eanticos ou uma inven\u00e7\u00e3o da sua imagina\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A fun\u00e7\u00e3o do sochantre: cantor<\/strong><\/p>\n<p>Em Modonhedo Cunqueiro ouviria frequentemente falar de \u201csochantre\u201d entre os t\u00edtulos do cabido catedral\u00edcio. (Por exemplo, na detalhad\u00edssima <em>Gu\u00eda de la di\u00f3cesis<\/em> de 1965 aparecem, entre os membros que constitu\u00edam o cabido da catedral de Mondonhedo, o chantre e o sochantre).<\/p>\n<p>Nas suas <em>Cr\u00f3nicas do sochantre<\/em> Cunqueiro apresenta-nos um sochantre que tem como of\u00edcio tocar um instrumento de vento metal chamado <em>bombardino<\/em> (ou tamb\u00e9m <em>euf\u00f3nio<\/em>).<\/p>\n<p>Mas se do formoso texto de Cunqueiro baixamos \u00e0 realidade hist\u00f3rica, detectamos v\u00e1rias incongru\u00eancias. E antes de nada devemos notar que a fun\u00e7\u00e3o de sochantre n\u00e3o tem nada a ver com nenhum instrumento musical, pois n\u00e3o \u00e9 um m\u00fasico, mas um cantor: \u00e9 o principal respons\u00e1vel do canto no cabido.<\/p>\n<p>Podemos ver descrita pormenorizadamente a sua fun\u00e7\u00e3o nas <em>Constituciones<\/em> do cabido mindoniense, de 1889, reproduzidas no cat\u00e1logo musical da catedral de Mondonhedo elaborado por Jo\u00e1m Trillo e Carlos Villanueva:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 obligaci\u00f3n particular del sochantre regir el Coro [&#8230;], entonar en medio del Coro [&#8230;], cantar bajo de la Pasi\u00f3n [&#8230;] dar el tono [&#8230;]. Es obligaci\u00f3n del sochantre procurar se lleve el canto conforme a la solemnidad de cada fiesta [&#8230;]. Si alg\u00fan capitular desentonase en el canto, procurar\u00e1 avisarlo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O bombardino<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 outro desajuste hist\u00f3rico nas <em>Cr\u00f3nicas do sochantre<\/em>: a respeito do bombardino.<\/p>\n<p>Cunqueiro situa o desenvolvimento das suas <em>Cr\u00f3nicas<\/em> nos finais do s\u00e9culo XVIII (anos 1793-96).<\/p>\n<p>Ora, o bombardino, instrumento met\u00e1lico de vento, de som que encerra um encanto particular (por isso chamado <em>euf\u00f3nio<\/em>), considera-se inventado nos meados do s\u00e9culo XIX, de maneira que n\u00e3o existia como tal instrumento na \u00e9poca em que Cunqueiro p\u00f5e as andan\u00e7as do sochantre da Bretanha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As Cr\u00f3nicas do sochantre (primeira edi\u00e7\u00e3o: Vigo 1956, Editorial Galaxia) \u00e9 um extraordin\u00e1rio livro de \u00c1lvaro Cunqueiro: um conjunto de hist\u00f3rias rebordantes de imagina\u00e7\u00e3o, contadas numa linguagem de bom dizer, no estilo que Cunqueiro manejava com m\u00e3o de mestre. \u00c9 sabido que a imagina\u00e7\u00e3o de \u00c1lvaro Cunqueiro \u00e9 t\u00e3o criativa que salta frequentemente por cima da realidade hist\u00f3rica, e at\u00e9 da verossimilitude, e seria descabido pretender exigir-lhe as qualidades de rigor que se esperam de um historiador. 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