O sochantre de Cunqueiro: um sochantre que não é sochantre

As Crónicas do sochantre (primeira edição: Vigo 1956, Editorial Galaxia) é um extraordinário livro de Álvaro Cunqueiro: um conjunto de histórias rebordantes de imaginação, contadas numa linguagem de bom dizer, no estilo que Cunqueiro manejava com mão de mestre.

É sabido que a imaginação de Álvaro Cunqueiro é tão criativa que salta frequentemente por cima da realidade histórica, e até da verossimilitude, e seria descabido pretender exigir-lhe as qualidades de rigor que se esperam de um historiador. Tal despreocupação pelo rigor histórico foi também habitual nos artigos jornalísticos de Cunqueiro  –o que não foi sempre bem recebido por alguns críticos. Chegou a inventar poetas e poemas alheios inexistentes, que na realidade eram criação (e inspiração) sua. Em Cunqueiro ficamos amiúdo desorientados, porque nunca sabemos se os dados curiosos e insólitos de história cultural que ele cita são autênticos ou uma invenção da sua imaginação…

 

A função do sochantre: cantor

Em Modonhedo Cunqueiro ouviria frequentemente falar de “sochantre” entre os títulos do cabido catedralício. (Por exemplo, na detalhadíssima Guía de la diócesis de 1965 aparecem, entre os membros que constituíam o cabido da catedral de Mondonhedo, o chantre e o sochantre).

Nas suas Crónicas do sochantre Cunqueiro apresenta-nos um sochantre que tem como ofício tocar um instrumento de vento metal chamado bombardino (ou também eufónio).

Mas se do formoso texto de Cunqueiro baixamos à realidade histórica, detectamos várias incongruências. E antes de nada devemos notar que a função de sochantre não tem nada a ver com nenhum instrumento musical, pois não é um músico, mas um cantor: é o principal responsável do canto no cabido.

Podemos ver descrita pormenorizadamente a sua função nas Constituciones do cabido mindoniense, de 1889, reproduzidas no catálogo musical da catedral de Mondonhedo elaborado por Joám Trillo e Carlos Villanueva:

 

“Será obligación particular del sochantre regir el Coro […], entonar en medio del Coro […], cantar bajo de la Pasión […] dar el tono […]. Es obligación del sochantre procurar se lleve el canto conforme a la solemnidad de cada fiesta […]. Si algún capitular desentonase en el canto, procurará avisarlo”.

 

O bombardino

Há outro desajuste histórico nas Crónicas do sochantre: a respeito do bombardino.

Cunqueiro situa o desenvolvimento das suas Crónicas nos finais do século XVIII (anos 1793-96).

Ora, o bombardino, instrumento metálico de vento, de som que encerra um encanto particular (por isso chamado eufónio), considera-se inventado nos meados do século XIX, de maneira que não existia como tal instrumento na época em que Cunqueiro põe as andanças do sochantre da Bretanha.

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